Em primeiro lugar, obrigado a cada um que nos acompanhou por aqui e que, como uma novela ou contos de fadas, torcia por um final feliz.
Nos dias imediatamente anteriores à prova, confesso que não a esperei com ansiedade. No sábado fui ao Teatro Municipal de Niterói com as crianças, brincamos no shopping e jantamos (o famoso jantar de massas!). Tudo na mais perfeita ordem. Acabei perdendo um pouco de tempo arrumando minhas coisas para o dia seguinte e fui dormir mais tarde do que esperava.
O dia 26 de julho de 2015 vai ficar marcado pra sempre na minha história, foi perfeito, como tantos outros. Acordei às quatro da manhã e pude já sentir a vibração da galera através do grupo de whatsapp, enchendo-nos de vibrações positivas. O Léo me buscou na hora prevista, a van saiu às cinco em ponto. Tudo certo!
Na van que nos levava ao Recreio dos Bandeirantes, um momento de emoção. Um vídeo preparado pelas famílias dos corredores desejando-nos boa sorte me surpreendeu e me encheu de orgulho. Lá estavam Dari e as crianças, cada um a seu jeito dizendo que me amavam e desejando uma boa prova. E assim com os outros também. As lágrimas do professor e companheiro Everton me deram a certeza de que corríamos por prazer e que nada disso era em vão.
Chegando ao Pontal do Tim Maia, a vontade de urinar era grande e não havia banheiros suficientes para todos. Tive que me aproveitar de um matagal num terreno baldio. Ao dobrar a esquina e entrar por uma rua de terra batida, me deparo com um par de nádegas sendo limpas (rsrs)! Aquela visão do inferno veio acompanhada de uma afirmação "E aí, pode usar o banheiro aqui do lado, tem lugar pra todo mundo!" Era um senhor de cerca de 55 anos descarregando suas emoções antes da prova. Obviamente não contive o riso e tive que urinar do outro lado. Era a certeza de que ainda iria me divertir muito com isso tudo.
O ambiente era o mais favorável. Muita gente animada, gritaria, arrepio: após cinco de meses, finalmente tinha chegado a hora.
Como eu já disse por aqui inúmeras vezes, os amigos são muito importantes na vida. Na corrida não é diferente. Eu disse e reafirmo: não teria feito nada disso sozinho. Nesses últimos cinco meses de preparação não teria aguentado tantos quilômetros não tivesse a companhia da equipe. O colombiano de nome profético Jesus é um destes. Com dores (fascite plantar como eu) veio nos acompanhar, certo de que, com o nosso ritmo e nossas risadas, terminaria a prova pela primeira vez e, sem saber, foi fundamental para minha prova.
Logo no inicio da prova, ainda antes do quilômetro quatro, Rodrigo começou a sentir as suas já famosas dores, aquelas que o levaram a ser o alvo preferido dos médicos, fisioterapeutas, farmacêuticos e representantes de laboratório. No início não levei a sério, disse brincando que era frescura, coisa da cabeça dele. Talvez isso o fizesse esquecer ou parar de se impressionar com as dores, que poderiam levá-lo à ruína (era meu temor). Sendo assim, começamos devagar e devagar permanecemos.
As dores do colega não o impediram de ser espirituoso e irônico, sorrir e fazer piadas com a situação e com o nome do colega e a fama do seu homônimo. Eu, como católico, ainda acho que Jesus não foi parar ali por acaso. Rodrigo se lamentava do nosso ritmo e insistia que eu estava perdendo a prova. Eu dizia: "que se dane o tempo, estou me divertindo!".
Nos quilômetros inciais muita alegria e sorrisos. No quilômetro dez um momento de tensão. Rodrigo ingere seu sache de gel e o joga fora... na cabeça do sujeito ao lado. Ao mesmo tempo, silêncio de nós três, esperando pelo pior. Eis que o sujeito atingido fala: "essa prova não tem Gatorade, mas tá chovendo gel, que maravilha!" Ufa, ele tinha levado na esportiva. Pedimos desculpas e seguimos. Eu lhe disse pra ficar despreocupado que o gel do Rodrigo já tinha acabado (mentirinha, né?).
Há três pontos que gostaríamos que a organização da prova melhorasse nos próximos anos. Em primeiro lugar, no quesito hidratação. Na primeira metade da prova quando passamos não havia mais sinal algum de isotônicos e poucas águas restavam nos postos. Isto para um grupo que estava fazendo o seu melhor, ainda que demorasse mais um pouco para alcançar seus objetivos. Por isso o rapaz havia dito que não havia Gatorade. Preferimos seguir, deixando que este problema não nos tirasse o espírito alegre que nos trouxera até ali. Ainda ficaríamos decepcionados com a organização da prova pela falta da música de Mozart e das luzes que nos saudariam no túnel do Joá (coluna de Ancelmo em O Globo 25/07/2015), por já estarem desmontando os equipamentos. Lembro-me da nossa expectativa ao ver o túnel e curiosidade para saber como seria passar tao alegre e ganhar mais este incentivo. Do quilômetro vinte até o malfadado túnel, Rodrigo não dizia outra coisa que não "tô doido pra ouvir o Mozart logo". Ficamos frustrados, mas isto não afetou nosso rendimento. Seria algo a mais, e não foi. Por último, acredito que faltou ainda proteção e isolamento aos corredores em muitos trechos da jornada.
Terminamos a primeira parte da prova (a segunda corrida das quatro que teria que percorrer o Rodrigo) mantendo os sorrisos. Subindo o elevado do Joá um fotógrafo ao ver nossa alegria e companheirismo nos desafiou "Quero ver essa alegria lá na chegada!" Ao que respondi "Pode ter certeza". Neste momento, peguei o telefone da Dari que eu havia levado para que a família e amigos pudessem nos acompanhar e fizemos selfies, enviei mensagens aos familiares, tentei ligar para Dariela e para meu irmão (estes últimos sem sucesso). Havia visto que faltava pouca bateria, guardei o telefone e não mais mexi nele. Momentos depois da prova soube da aflição de todos ao ver que o aplicativo da Maratona não atualizava nossa localização após a chegada em Copacabana e muitos temiam pelo pior. Havia acabado a bateria do telefone, não a nossa.

O início de São Conrado e a aproximação do quilômetro vinte e seis fazem minha preocupação com o Rodrigo aumentar, quadro que piora a partir do trinta. Tento caminhar ao lado do Rodrigo, mas meu corpo não o permite: tal qual um desenho animado, minhas pernas continuam se movendo ao ritmo da corrida. Incrível, nunca tinha experimentado esta sensação. Apesar disso, tinha a certeza de que terminaríamos. Jesus também reclama a todo momento das dores na fáscia plantar, mas não acredito numa só palavra do que diz, tal a expressão calma que ele transmite e a facilidade que demonstra correr.
Descemos a Niemeyer e as conversas começam a escassear. Aparecem pela primeira vez os populares a nos estimular e em Copacabana as frutas e biscoitos oferecidos pelo patrocinador da prova e o insuportável cheiro de gordura trazido pelos quiosques da orla. Nos animamos ao mantermos o ritmo firme das pisadas e assim ultrapassarmos os corredores, que já caminhavam. Já não ficaríamos tão para trás.
Confesso que o quilômetro trinta e sete (altura do Copacabana Palace) me trouxe o alivio: Rodrigo encontra seu enteado João. Desta forma, seria mais um incentivo para o alívio das dores do colega.
Apertamos então o ritmo, eu e Jesus mantendo o bom humor e a confiança. A vitoria estava logo ali. Ao atravessar o túnel do pasmado as primeiras lágrimas já teimam em querer sair, não as deixo.
A enseada de Botafogo a partir do quilômetro trinta e nove ressuscitam minhas dores relacionadas à fascite plantar. Sinto uma vontade imensa de fazer como todos os que vejo: quero andar. Jesus me estimula e me proíbe. Como aquele colombiano com nome celestial ainda tinha forças pra tentar correr mais forte?
No quilômetro quarenta encontro com Rossy, o treinador, pergunto pela Isa e me diz que terminou. Sinto-me feliz por ela, após tantos problemas. No instante seguinte vejo duas amigas apoiando outra para que termine. Outros três na maratona, outra vitória da amizade e superação pessoal, outro doar-se ao outro. Mais alegrias.
Não vejo mais placas de sinalização a partir do quilômetro quarenta e um. Após a curva do Morro da Viúva, vejo ao fim a linha de chegada. Do nada descem as lágrimas. Igualmente tento controlá-las, mas não consigo. Choro copiosamente. Como uma criança. Como há muito não fazia. Lembro-me do esforço que fiz até ali, do primeiro dia em que me levantei solitário às cinco da manhã e de encarar as ruas ainda escuras. Penso no meu irmão, meu pai e minha mãe que não puderam estar ali, na falta que sentia deles. Penso na minha família, na minha esposa, nas crianças, na minha sogra que estava ali e isto me conforta o coração, me faz acelerar ainda mais. Dou um abraço no amigo Jesus e lhe agradeço por estar ali. Os populares começam a aplaudir-me. Foi especial. Busco em ambos os lados minha mulher e minhas crianças e não as encontro.

Cruzo a linha de chegada com um tempo bem maior do que eu planejava, ainda preocupado com o Rodrigo. No entanto, sabia que faltando pouco ele terminaria, até mesmo rolando, como o Valter, jogador de futebol ousara fazer uma vez numa comemoração. Este era o prometido por ele dias antes da prova.
A paz toma conta de mim. Ainda procuro minha família. Quando acabo de chegar na dispersão tomo um susto com minhas pequenas correndo atras de mim e efusivamente me abraçando. Mais lágrimas, mais alegria. Pronto, minha felicidade estava completa. Ganhei o meu troféu, exatamente como eu relatei no blog há tempos. Martha, orgulhosa, apontando pra camisa que dizia "Meu pai correu a maratona" (e que meu irmão fizera). Milena gritando que eu havia conseguido! Um beijo na esposa e no Théo. Um abraço na minha sogra. Minha mãe, como um presságio me liga naquele exato momento. Tudo o que eu queria ouvir.
Olho para a frente e vejo o João (Rodrigo vencera suas dores e chegara, ufa, deu tudo certo para nós três!).
Mantenho o sorriso prometido ao fotógrafo.
Pronto, nada mais me importava no mundo!
Sou um maratonista!