quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Pernas pra que te quero


Quando comecei a escrever no blog, pensei: “como arrumar tanto assunto sobre corrida?”

Mas você começa a viver esse mundo do esporte e percebe que há muito mais que pensava.

Por exemplo, decidi me enfiar numa prova que é só descida, não pela facilidade aparente, mas porque vou visitar amigos no Canadá, onde a corrida acontece. Depois descobri que muitos participam dela para se qualificar para a Maratona de Boston.


Ao contrário do que a maioria deve pensar, descer não é tão fácil quanto parece. E eu resolvi pesquisar a respeito, pois tinha quase certeza que corria errado, ‘me segurando’. Aliás, corro. Tinha razão.

De tudo o que eu li e vi sobre a mecânica, o mais elucidativo foi um vídeo da soürun. Em resumo:

- Frear acentua o impacto;

- O correto é aumentar a frequência das passadas, diminuindo o tempo de contato com o solo, vejam no vídeo:


Ao menos para mim, descer parece bem mais complicado que subir. Vamos aos treinos!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Correndo por aí: Tegucigalpa

Não sabia como seria minha vida pós-maratona. Muita coisa se passou desde o glorioso 26 de julho: muito repouso para curar lesões, problemas com medicamentos de uso contínuo, muita preguiça, muitos quilos que ganhei, mas muita alegria por estar vivo.

Desde o início de dezembro venho tentando retomar os ritmos dos treinos: sem sucesso. Seja por conta dos filhos, pela correria da entrega dos diários na escola ou pela hérnia que insiste em avisar que permanece viva por ali.

Este ano partimos de viagem para Honduras, na América Central, a fim de ver a família e celebrar mais um ano de vida da minha pequenina.

Em homenagem ao sétimo aniversário da minha mais velha decidi sair finalmente para correr. Após muito conversar com familiares, decidi fazer o que fazem todos por aqui: correr na pista de corrida do Estádio Olímpico de Tegucigalpa.

Ué, mas as pessoas não correm nas ruas por aqui não? Pois é, as ruas são praticamente desertas, pois a sensação de insegurança é grande e permeia a sociedade. Tegucigalpa, segundo dados recentes, tem a sexta maior taxa de homicídios do mundo 79,42 homicídios por 100 mil habitantes. Por isso, os carros tomam conta das ruas, pois, para piorar, o transporte público é péssimo e deficiente, além, claro, de inseguro.

A cidade não é muito diferente das nossas no Brasil e, a despeito de toda a fama adquirida por Honduras no cenário mundial (outra grande cidade hondurenha, San Pedro Sul, no norte do país, é a líder do ranking), nunca tivemos problemas em todas as vezes que visitamos o país. 

De toda forma, a pista de atletismo do Estádio Olímpico está nova em folha, havia policiais por todas as partes e as pessoas eram muito agradáveis (como sempre).

Pude, afinal, fazer meu primeiro treino do ano rumo à segunda maratona, uma corrida de 40 minutos ao redor da pista de 400 metros. Voltei cedo,  a tempo ainda de acordar minha filhota ao som de "Las Mañanitas".

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Muito obrigado a todos. Uma pausa para seguir em frente.

Em meu nome, do Rodrigo e da Isa, gostaria de agradecer a todos os que durante os últimos meses acompanharam nossa jornada visando a conclusão de nossa primeira maratona. No momento vamos dar uma pausa para pensarmos com clareza o que faremos do blog a partir de agora. Nós continuaremos correndo e ele também vai nos acompanhar. A dúvida é saber como isso se dará. Muitas surpresas e novidades nos aguardam nos próximos meses. Agora o que precisamos é descansar, recuperar as baterias (e o corpo) pra seguir em frente.
Um até breve a todos. Muito obrigado de coração pelo carinho demonstrado até aqui e pelas vibrações positivas recebidas antes, durante e depois da nossa prova.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Minha primeira maratona - Por Marise Basso Amaral

A primeira Maratona a gente...
...cansa muito, acha que não vai chegar, fica com medo.

Dá frio na barriga antes, durante e depois. Ficamos muito ansiosos na véspera. Vamos dormir pensando que temos que dormir e aí mesmo que não conseguimos. Temos que comer bem, aí vem aquela vontade de comer um saco de Amandita (delícia!). Vem aquela dúvida: " será que vou dar conta?", vem um momento que a gente acredita que poderá fazer até um tempo legal, que pode ser mais fácil do que parece (não é, pelo menos não ainda...) depois vem o pânico de nem terminar. Na verdade, ninguém sabe o que vai acontecer até a gente começar a correr e ir em frente quilômetro a quilômetro.

Confesso que escrevendo agora, depois de ter terminado a Maratona de domingo, me vem uma sensação esquisita... Acabou mesmo? Não tem mais treino? Não vou mais correr com a Isabelle atrás do Marcio e do Cristiano? Credo! Vou poder dormir no sábado de manhã! Acabou! Tão rápido!!! (praticamente 5 horas). 

Venho escrevendo sobre nossos treinos, sobre as corridas, sobre as pessoas que fazem a Equipe de Fibra, sobre o que a corrida tem significado pra nós. Mas, agora que acabou a Maratona, se instalou uma espécie de quietude, acho que é mesmo a sensação de que a gente fez algo bem especial, sem excesso de vaidade nem falsa modéstia, mas aquele sentimento lá dentro,uma vozinha lá no fundo,dizendo, repetindo: "Você conseguiu! Você conseguiu!" Esse sentimento é por demais pessoal, difícil de ser compartilhado. Posso dizer que tenho dentro de mim uma emoção que não explodiu na hora, achei que ia cair em prantos, confesso. Isso não aconteceu, ela ficou toda comigo, reverberando. E acordei diferente, acordei mais humilde, mais feliz comigo e com os outros e cheia de admiração pelas pessoas. 
Pessoas anônimas que eu cruzei pelo caminho e que correndo sozinhas ou em grupo iam, cada uma a seu jeito, dando uma lição de superação, de amor à vida, de amor ao esporte, de leveza, de alegria, de esforço e determinação. Também cheia de admiração por pessoas bem próximas a mim como a Thamiris, o Douglas, o Marcus Alexandre, a Letícia, a Márcia Torres, o Marcos Marini, o João, o Rodrigo Troyack, o Rafael Grassi, meu filhote Pedro e o pai dele, Cristiano. Pessoas que dentro de seus cotidianos, projetos, trabalhos, sonhos, tratamento, escola, compromissos, criaram um espaço na vida para se dedicar a um projeto. Ver todos ali, e também a minha filha Luiza, a nossa Lourdes, a linda família do Alexandre, mais amigos queridos como a Ariane, Flávio Flavio Pontes, o Thomaz Barcellos me encheu de alegria.

Mas não seria justo se eu não falasse do que mais me faz continuar sorrindo pelos cantos, apostar em novos sonhos, e, é claro, continuar comendo batata doce. É o Pedro. Terminar a corrida com ele ontem foi a maior emoção dos 42km. Estava chegando próxima à linha de chegada e nada. Não via ninguém, não achava ninguém. Foi me dando uma agonia, comecei a ficar preocupada. Será que algo tinha dado errado? Será que o Pedro não tinha conseguido fazer bem a prova dele? Será que a Lourdes e a Luiza não tinham achado todo mundo? Puxa! É muita gente! Não tinha como dar certo... Aí eu vi um grito e vi ele correndo na minha direção com a medalha no pescoço. Tinha pulado a grade de proteção e eu soube, estava nos seus olhos, que tudo tinha dado certo. Lá estava o meu filhote com aquela alegria imensa que ele traz no peito, me dizendo: "Vem mãe, falta bem pouco, vem que eu te ajudo!"

Corri também para a grade e dei um beijo na minha filhota, que estava lá com aquele sorriso discreto, cheio de orgulho, mas que ia ficar esperando o papai passar. 

Fomos eu e Pedro correndo, cruzamos a linha de chegada, ele me levando. Disse para ele que nem acreditava que tinha acabado, ele disse que estava tudo bem, tudo ótimo. Perguntei da corrida dele, e ele disse: "Mãe, foi sensacional, eu me senti perfeito!!! Eu adorei." essa frase foi o melhor presente de seis meses de treinamento e de sei lá quantos quilômetros rodados.

Depois chegou o pai dele, correndo com a nossa filhota e foi lindo! Ela não podia estar mais orgulhosa. Ele, embora tenha demorado para se convencer disso, conseguiu correr uma maratona, treinando com muita dificuldade de tempo, fazendo treinos curtos, que cabiam na agenda, mas bem longe do ideal para uma prova desse tamanho. Ele que no fundo, é um dos principais responsáveis por tudo isso, por toda essa festa! Ele e ela juntos me encheram de orgulho! No ano que vem, quem sabe, teremos quatro medalhas....

A vida de todos nós sempre tem muitos momentos, muitas coisas difíceis e bonitas acontecem na vida de todo mundo. Nisso não somos especiais, nem melhores do que ninguém. Mas peço licença para marcar que poder subverter, em alguns momentos, uma pauta, por demais marcada na doença, na dificuldade, no trabalho que dá cuidar de alguém, ou cuidar de si mesmo, que vem com uma doença crônica, por outras, mais edificantes é uma grande vitória. E nisso poder, com integridade, ficar feliz e orgulhoso quando for o caso e também, com a mesma intensidade ficarmos apreensivos, tristes e preocupados quando a situação demanda. Aprendendo nesses movimentos, nessas alternâncias, nas nossas "Maratonas" particulares um amor à vida, ao outro e a si mesmo.

 Marise Basso Amaral corre pela Equipe de Fibra

terça-feira, 28 de julho de 2015

Para tudo existe a primeira vez

Começo hoje me desculpando com os colegas do blog Rodrigo e Tarso. Poderia ter corrido a maratona com vocês, mas não o fiz. Acompanhei a Marise (Equipe de Fibra), uma grande parceira dos treinos e amiga.

Acabei optando por correr ao lado dela, pois sabia que Tarso e Rodrigo estariam bem acompanhados por Jesus. Já a Marise, mesmo tendo seu marido Cristiano como companheiro de corrida, este também já tinha seu parceiro naquele dia, o Marcio, e assim ela ficaria sozinha. E como nós já havíamos treinado muito bem juntas, e nos demos muito bem, a companhia durante a prova foi fundamental. E assim, todos saímos ganhando!

No último domingo (26), foi um grande dia, mais uma conquista, mais uma vitória e mais uma história pra contar. Eu, que estava abalada psicologicamente nas últimas semanas achando que não conseguiria, consegui!!

Não havia percorrido uma distância maior que 30km nos treinos, e isso estava me abalando, me deixando em dúvida.

Foi dada a largada! Emoção percorre dentro das veias e arrepia. Nos primeiros quilômetros enquanto seguíamos em uma direção, já do outro lado da pista na direção oposta, passam pela gente os maratonistas deficientes visuais e cadeirantes, e isso arrepia mais ainda, nos faz pensar e repensar nossas atitudes, nossas dificuldades, nossa humildade como seres humanos, nos dando motivação ainda maior.

Pelo km 3 aproximadamente, tive que utilizar o banheiro químico da prova, mesmo já tendo ido ao banheiro antes da largada, acho que a ansiedade estava a mil rsrs...

Eu e Marise fomos administrando nosso pace durante todo o percurso, não precisamos caminhar nas subidas mais duras. Devagar e sempre.

Ao ultrapassar o km 30, me emocionei, as lágrimas se misturaram ao suor escorrendo pelo rosto e logo veio uma sensação de alívio ao perceber que eu estava bem e pensar que faltavam só mais 12km para completar a prova.

Algumas caminhadas foram necessárias durante a hidratação e o gel, mas nada significante, apenas para facilitar a decida pelo esôfago até o estômago.

Pelo km 33 mais ou menos, encontramos o Cris (marido da Marise). No km 34/35, não me lembro bem, acabei me distanciando um pouco dos dois, fiquei pouca coisa à frente, porém, não olhava mais para trás, nem para frente, apenas para o chão e para as pessoas torcendo por nós corredores.

No km 37, ouço uma voz aclamando meu nome! Olho e faço pose para a foto. Era a Fernanda, esposa do Rodrigo, mais uma torcedora.


Continuo minha missão. No final de Copacabana, quase entrando no túnel encontro mais uma pessoa muito especial, meu namorado André, que me acompanhou até a linha de chegada. Uma força extra para os "finalmentes".

Já avistando o pórtico da chegada, encontro o Rossy, nosso treinador. Uma das pessoas responsáveis e importantes por essa minha conquista.

E como em toda corrida, um sprint no final rsrsrs...... nos últimos 100 metros, pois não aguentava mais.....


Chegando à tenda da assessoria UpsportsClub, encontro minha mãe, que pela primeira vez foi me prestigiar numa corrida no Rio. E um abraço forte acalenta meu coração.

Quando pensamos em fazer uma maratona e comentamos com colegas e conhecidos, as reações são as mais diversas possíveis. Há os que dizem que somos loucos; para que queremos isso?; por que gostamos de correr?; qual a necessidade?; e há também os que nos apoiam, nos incentivam, nos motivam e nos servem como exemplos, que queremos seguir.

Sabe por que eu corro?

Eu quero chegar aos 70 anos sem ter que usar a fila preferencial por não aguentar ficar de pé, por consequência do sedentarismo durante a juventude dos 20-30 anos.

Eu quero ter percorrido lugares diferentes do mundo correndo.

Eu quero fazer mais maratonas.

Eu quero alcançar a linha de chegada sendo aplaudida e chorando de emoção, assim como aconteceu neste domingo!

Quero ser motivo de orgulho aos meus pais, aos meus futuros filhos, à minha família.

Obrigada a todos!

Agora posso me considerar uma MARATONISTA!
E que venham as próximas!


segunda-feira, 27 de julho de 2015

É hoje o dia da alegria!!!!!!

Em primeiro lugar, obrigado a cada um que nos acompanhou por aqui e que, como uma novela ou contos de fadas, torcia por um final feliz.


Nos dias imediatamente anteriores à prova, confesso que não a esperei com ansiedade. No sábado fui ao Teatro Municipal de Niterói com as crianças, brincamos no shopping e jantamos (o famoso jantar de massas!). Tudo na mais perfeita ordem. Acabei perdendo um pouco de tempo arrumando minhas coisas para o dia seguinte e fui dormir mais tarde do que esperava.

O dia 26 de julho de 2015 vai ficar marcado pra sempre na minha história, foi perfeito, como tantos outros. Acordei às quatro da manhã e pude já sentir a vibração da galera através do grupo de whatsapp, enchendo-nos de vibrações positivas. O Léo me buscou na hora prevista, a van saiu às cinco em ponto. Tudo certo!

Na van que nos levava ao Recreio dos Bandeirantes, um momento de emoção. Um vídeo preparado pelas famílias dos corredores desejando-nos boa sorte me surpreendeu e me encheu de orgulho. Lá estavam Dari e as crianças, cada um a seu jeito dizendo que me amavam e desejando uma boa prova. E assim com os outros também. As lágrimas do professor e companheiro Everton me deram a certeza de que corríamos por prazer e que nada disso era em vão.

Chegando ao Pontal do Tim Maia, a vontade de urinar era grande e não havia banheiros suficientes para todos. Tive que me aproveitar de um matagal num terreno baldio. Ao dobrar a esquina e entrar por uma rua de terra batida, me deparo com um par de nádegas sendo limpas (rsrs)! Aquela visão do inferno veio acompanhada de uma afirmação "E aí, pode usar o banheiro aqui do lado, tem lugar pra todo mundo!" Era um senhor de cerca de 55 anos descarregando suas emoções antes da prova. Obviamente não contive o riso e tive que urinar do outro lado. Era a certeza de que ainda iria me divertir muito com isso tudo.

O ambiente era o mais favorável. Muita gente animada, gritaria, arrepio: após cinco de meses, finalmente tinha chegado a hora.


Como eu já disse por aqui inúmeras vezes, os amigos são muito importantes na vida. Na corrida não é diferente. Eu disse e reafirmo: não teria feito nada disso sozinho. Nesses últimos cinco meses de preparação não teria aguentado tantos quilômetros não tivesse a companhia da equipe. O colombiano de nome profético Jesus é um destes. Com dores (fascite plantar como eu) veio nos acompanhar, certo de que, com o nosso ritmo e nossas risadas, terminaria a prova pela primeira vez e, sem saber, foi fundamental para minha prova.

Logo no inicio da prova, ainda antes do quilômetro quatro, Rodrigo começou a sentir as suas já famosas dores, aquelas que o levaram a ser o alvo preferido dos médicos, fisioterapeutas, farmacêuticos e representantes de laboratório. No início não levei a sério, disse brincando que era frescura, coisa da cabeça dele. Talvez isso o fizesse esquecer ou parar de se impressionar com as dores, que poderiam levá-lo à ruína (era meu temor). Sendo assim, começamos devagar e devagar permanecemos. 

As dores do colega não o impediram de ser espirituoso e irônico, sorrir e fazer piadas com a situação e com o nome do colega e a fama do seu homônimo. Eu, como católico, ainda acho que Jesus não foi parar ali por acaso. Rodrigo se lamentava do nosso ritmo e insistia que eu estava perdendo a prova. Eu dizia: "que se dane o tempo, estou me divertindo!".

Nos quilômetros inciais muita alegria e sorrisos. No quilômetro dez um momento de tensão. Rodrigo ingere seu sache de gel e o joga fora... na cabeça do sujeito ao lado. Ao mesmo tempo, silêncio de nós três, esperando pelo pior. Eis que o sujeito atingido fala: "essa prova não tem Gatorade, mas tá chovendo gel, que maravilha!" Ufa, ele tinha levado na esportiva. Pedimos desculpas e seguimos. Eu lhe disse pra ficar despreocupado que o gel do Rodrigo já tinha acabado (mentirinha, né?). 

Há três pontos que gostaríamos que a organização da prova melhorasse nos próximos anos. Em primeiro lugar, no quesito hidratação. Na primeira metade da prova quando passamos não havia mais sinal algum de isotônicos e poucas águas restavam nos postos. Isto para um grupo que estava fazendo o seu melhor, ainda que demorasse mais um pouco para alcançar seus objetivos. Por isso o rapaz havia dito que não havia Gatorade. Preferimos seguir, deixando que este problema não nos tirasse o espírito alegre que nos trouxera até ali. Ainda ficaríamos decepcionados com a organização da prova pela falta da música de Mozart e das luzes que nos saudariam no túnel do Joá (coluna de Ancelmo em O Globo 25/07/2015), por já estarem desmontando os equipamentos. Lembro-me da nossa expectativa ao ver o túnel e curiosidade para saber como seria passar tao alegre e ganhar mais este incentivo. Do quilômetro vinte até o malfadado túnel,  Rodrigo não dizia outra coisa que não "tô doido pra ouvir o Mozart logo". Ficamos frustrados, mas isto não afetou nosso rendimento. Seria algo a mais, e não foi. Por último, acredito que faltou ainda proteção e isolamento aos corredores em muitos trechos da jornada.

Terminamos a primeira parte da prova (a segunda corrida das quatro que teria que percorrer o Rodrigo) mantendo os sorrisos. Subindo o elevado do Joá um fotógrafo ao ver nossa alegria e companheirismo nos desafiou "Quero ver essa alegria lá na chegada!" Ao que respondi "Pode ter certeza". Neste momento, peguei o telefone da Dari que eu havia levado para que a família e amigos pudessem nos acompanhar e fizemos selfies, enviei mensagens aos familiares, tentei ligar para Dariela e para meu irmão (estes últimos sem sucesso). Havia visto que faltava pouca bateria, guardei o telefone e não mais mexi nele. Momentos depois da prova soube da aflição de todos ao ver que o aplicativo da Maratona não atualizava nossa localização após a chegada em Copacabana e muitos temiam pelo pior. Havia acabado a bateria do telefone, não a nossa.



O início de São Conrado e a aproximação do quilômetro vinte e seis fazem minha preocupação com o Rodrigo aumentar, quadro que piora a partir do trinta. Tento caminhar ao lado do Rodrigo, mas meu corpo não o permite: tal qual um desenho animado, minhas pernas continuam se movendo ao ritmo da corrida. Incrível, nunca tinha experimentado esta sensação. Apesar disso, tinha a certeza de que terminaríamos. Jesus também reclama a todo momento das dores na fáscia plantar, mas não acredito numa só palavra do que diz, tal a expressão calma que ele transmite e a facilidade que demonstra correr.

Descemos a Niemeyer e as conversas começam a escassear. Aparecem pela primeira vez os populares a nos estimular e em Copacabana as frutas e biscoitos oferecidos pelo patrocinador da prova e o insuportável cheiro de gordura trazido pelos quiosques da orla. Nos animamos ao mantermos o ritmo firme das pisadas e assim ultrapassarmos os corredores, que já caminhavam. Já não ficaríamos tão para trás.

Confesso que o quilômetro trinta e sete (altura do Copacabana Palace) me trouxe o alivio: Rodrigo encontra seu enteado João. Desta forma, seria mais um incentivo para o alívio das dores do colega.

Apertamos então o ritmo, eu e Jesus mantendo o bom humor e a confiança. A vitoria estava logo ali. Ao atravessar o túnel do pasmado as primeiras lágrimas já teimam em querer sair, não as deixo.

A enseada de Botafogo a partir do quilômetro trinta e nove ressuscitam minhas dores relacionadas à fascite plantar. Sinto uma vontade imensa de fazer como todos os que vejo: quero andar. Jesus me estimula e me proíbe. Como aquele colombiano com nome celestial ainda tinha forças pra tentar correr mais forte?

No quilômetro quarenta encontro com Rossy, o treinador, pergunto pela Isa e me diz que terminou. Sinto-me feliz por ela, após tantos problemas. No instante seguinte vejo duas amigas apoiando outra para que termine. Outros três na maratona, outra vitória da amizade e superação pessoal, outro doar-se ao outro. Mais alegrias.

Não vejo mais placas de sinalização a partir do quilômetro quarenta e um. Após a curva do Morro da Viúva, vejo ao fim a linha de chegada. Do nada descem as lágrimas. Igualmente tento controlá-las, mas não consigo. Choro copiosamente. Como uma criança. Como há muito não fazia. Lembro-me do esforço que fiz até ali, do primeiro dia em que me levantei solitário às cinco da manhã e de encarar as ruas ainda escuras. Penso no meu irmão, meu pai e minha mãe que não puderam estar ali, na falta que sentia deles. Penso na minha família, na minha esposa, nas crianças, na minha sogra que estava ali e isto me conforta o coração, me faz acelerar ainda mais. Dou um abraço no amigo Jesus e lhe agradeço por estar ali. Os populares começam a aplaudir-me. Foi especial. Busco em ambos os lados minha mulher e minhas crianças e não as encontro.


Cruzo a linha de chegada com um tempo bem maior do que eu planejava, ainda preocupado com o Rodrigo. No entanto, sabia que faltando pouco ele terminaria, até mesmo rolando, como o Valter, jogador de futebol ousara fazer uma vez numa comemoração. Este era o prometido por ele dias antes da prova.

A paz toma conta de mim. Ainda procuro minha família. Quando acabo de chegar na dispersão tomo um susto com minhas pequenas correndo atras de mim e efusivamente me abraçando. Mais lágrimas, mais alegria. Pronto, minha felicidade estava completa. Ganhei o meu troféu, exatamente como eu relatei no blog há tempos. Martha, orgulhosa, apontando pra camisa que dizia "Meu pai correu a maratona" (e que meu irmão fizera). Milena gritando que eu havia conseguido! Um beijo na esposa e no Théo. Um abraço na minha sogra.  Minha mãe,  como um presságio me liga naquele exato momento. Tudo o que eu queria ouvir. 

Olho para a frente e vejo o João (Rodrigo vencera suas dores e chegara, ufa, deu tudo certo para nós três!). 

Mantenho o sorriso prometido ao fotógrafo.

Pronto, nada mais me importava no mundo!

Sou um maratonista!


domingo, 26 de julho de 2015

Fui para a guerra e venci

Já comecei um post assim, mas não posso deixar de fazê-lo novamente. Obrigado, Tarso. Amigo que fiz e companheiro deste blog, deixou de concluir sua prova em um bom tempo para me acompanhar e garantir que eu completasse os 42km. Não teria conseguido sem ele e Jesus, colega de equipe que também nos acompanhou.

Minha corrida foi de total superação. Há 15 dias, vinha convivendo e tentando tratar uma dor no joelho após o longão de 34km. Na quinta, antes da prova, fui testá-lo em um treino leve com o Tarso e a Isa, e senti que a coisa estava feia. Corri direto para uma clínica de ortopedia e fiz ressonância no mesmo dia. Um amigo médico conseguiu antecipar o resultado por telefone, que confirmou minha lesão, estava com edema no joelho, a três dias da largada.

Decidi fazer uma infiltração, primeiro por mim mesmo, que me impus esse desafio e treinei tanto; segundo, por todos que acompanharam a minha saga de disciplina nos treinos. Era uma ocasião especial. Se fosse a segunda maratona, acho que não correria lesionado.

No caminho para o início, no Recreio, assistimos a um vídeo, na van, que minha mulher, Fernanda Freitas, preparou, com ajuda do Rossy, nosso treinador, que colheu depoimentos de familiares aos corredores da equipe. Além desse incentivo, havia meus pais na chegada, pela primeira vez. Corri com as iniciais deles (Paulo e Isa) escritas a caneta em cada pé. Eles também escreveram uma mensagem de apoio que levei comigo para os momentos críticos, assim como a Fernanda e o meu enteado João Guilherme. Foram lidas após os kms 20 e 30, não lembro em qual km exatamente.


Dada a largada, logo começou o meu tormento mental e físico. O joelho infiltrado começou a se manifestar, quando achei que ficaria anestesiado, ao menos em boa parte da prova. Pensei em desistir nesses primeiros quilômetros. Como poderia suportar aquela dor por 42km? Mas lembrei de tudo que estava em jogo e das pessoas que acreditaram em mim. Então, insisti.

Ao completar 10km, percebi que dividir a prova em quatro trechos de 10km seria uma boa estratégia para o cérebro. Na Praia da Reserva, ainda no Recreio, havia pequenos trechos de paralelepípedo na transição do asfalto, que maltratavam o meu joelho. Mentalizei que a dor era passageira, como havia visto em um vídeo na noite anterior, compartilhado pelo Everton, treinador da equipe.

Passei a pisar de um jeito que tornasse a dor menos insuportável, o que me causou uma bolha debaixo do pé e outra dor, no glúteo, ambas do mesmo lado. Aos 15km, incrivelmente a dor no joelho adormeceu até a subida do Elevado do Joá, quando o piso inclinado das curvas a trouxe de volta. E foi assim até o fim. Quem já teve lesão na banda iliotibial sabe como é.

Na Avenida Niemeyer, mais uma subida. Cheguei a caminhar por um breve pedaço, breve mesmo, porque logo percebi que era pior para a dor e seria ainda mais difícil retomar. A essa altura, liguei o som para me dar um gás. Tarso e Jesus seguiam mais à frente um pouco, mas sem me perder de vista.

Depois que passei por Leblon e Ipanema, veio a parte mais crítica para mim: Copacabana. Ali, o tempo ficou mais abafado e o cheiro de gordura dos quiosques era forte, péssimo para quem controlou também o enjoo por toda a prova. Seguindo as dicas que li, não mirei a orla para não ver o Leme distante e abalar o psicológico. Olhava para o chão ou para os prédios à minha esquerda.

No km 37, meu enteado João Guilherme me encontrou com Fernanda. Tarso e Jesus, então, aceleraram e eu segui com João me puxando, bastante emocionado pelo encontro. Dali em diante, os poucos incentivos de desconhecidos ao longo do trajeto aumentaram e cresceu a sensação de término de prova.

João Guilherme me puxando

Quase na chegada no Aterro, Rossy me encontrou para me puxar também, mas pedi que não acelerasse, pois não conseguiria administrar. Na reta final, ele e João Guilherme tiveram que me deixar e Isabelle me levou nos últimos metros.

Avistei meus pais do lado direito, onde também estavam Fernanda e Pilar, uma amiga nossa. Levantei os braços, me emocionei pelo encontro mais uma vez, mas não desabei no choro como achei que desabaria, muito provavelmente pela dor que me incomodava e que carreguei por 42km.

Quando a corrida vira algo sério em nossas vidas, amigos e familiares gostam de te apresentar como maratonista. E eu sempre tinha que explicar que não era bem assim. Havia uma distância muito grande. Agora, estou à vontade com o cartão de visita...rs

Fui para a guerra e voltei, literalmente.

Tarso, amigo, quando é a próxima? Você escolhe!