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domingo, 29 de maio de 2016

O santo spray de incentivo

Hoje tive oportunidade de correr a Maratona do Rio por dentro, digo sem ter a missão de completá-la. Combinei de correr os últimos 10km da prova com o amigo Tarso, que me acompanhou nos primeiros 42km no ano passado. Em 2015, eu me superei e corri lesionado. Dessa vez, foram o Tarso e outros guerreiros.

Cheguei cedo no Mirante do Leblon, saída da Avenida Niemeyer, e logo descobri que dali seriam 12km e não 10km até a chegada. Enchi as garrafas do cinto de hidratação com água e sentei no meio-fio à espera. Conversei uma parte do tempo com outro corredor que também acompanharia um colega. Naquele momento, avistávamos os atletas em ritmo de 5min/km, disse ele.

Não demorou para surgir o Jorge, da nossa equipe, a UpsportsClub. Ele fechou os 42km em 3h36min. Fiquei menos ansioso, pois sabia que o Tarso não havia passado. Fui para pista e cumprimentei o Jorge, orgulhoso de ter um amigo tão rápido. Depois, fiz o mesmo com Alex, Carla e Jesus. Foi muito boa a sensação de incentivar as pessoas, não apenas os amigos.

Era mais de 11h quando avistei o Tarso. A essa altura, sabia que ele estava devagar por causa da dor na coxa. Mas fiquei mais aliviado ao ver que não estava sozinho. Natália, também da nossa equipe, o acompanhava. E fomos juntos até ela encontrar o noivo em Copacabana. Tarso chegou bem-humorado. Ou seja, estava normal...rs

Levei um spray anti-inflamatório para o caso de a situação dele apertar. E acabei ‘salvando’ outros pelo caminho. O Tarso mesmo só aceitou o spray de tanto eu insistir e chamá-lo de teimoso.

Salvar, na verdade, é um exagero. Foi mais o lado psicológico, pois junto com o spray vieram as orientações de alongamento e palavras para não desistir. O primeiro que o ‘doutor’ aqui atendeu foi quando ainda esperava o Tarso no meio-fio. O sujeito sentou do meu lado e falou que não aguentava mais sentir câimbras. Falei que o pior havia passado, que também havia corrido com dor minha primeira maratona, como era a dele. Ele se alongou, recebeu o spray mágico (rs) e prosseguiu.

O segundo estava estirado na pista, sendo amparado por outros atletas, creio que já em Ipanema. Também reclamava da panturrilha. Ofereci o spray e ele agradeceu dizendo que eu era um “anjo” que mandaram em sua corrida. Caramba, pensei... Esse spray é mágico mesmo!

Na transição de Copacabana para Botafogo, na entrada do túnel, mais um estirado. Sentia demais a coxa e era socorrido por outro atleta. Usei o spray mais uma vez, falei palavras de incentivo (faltava pouco) e o levantei do chão.

No túnel seguinte, percebi que outra pessoa caminhava com muita dificuldade. Ofereci o santo remédio e ele não entendeu. Era gringo...kkk Expliquei o que era e aceitou.

Dos que eu ajudei no caminho, esse último consegui ver terminar a prova, correndo! Espero que os outros tenham concluído e tantos outros para quem simplesmente falei “vambora” e a pessoa logo retomava a marcha.

Foram extremamente gratificantes esses 12km. E pude ver de fora a emoção da chegada que já senti duas vezes. São todos guerreiros.

Natália e Tarso

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A segunda é mais gostosa!

Fiz minha segunda maratona. Não, não foi fácil. Mas foi mais fácil que a primeira, apesar do tempo maior para concluí-la. Por quê? Principalmente porque eu estava menos ansioso pressionado por mim mesmo. Afinal, já havia feito a primeira.

Foi no dia 1º de maio, em Toronto, no Canadá. Eu prometi correr a segunda com o amigo Tarso, que me acompanhou na primeira, no Rio de Janeiro, em julho. Mas não conseguimos conciliar porque ele já tinha uma viagem internacional com a família meses antes. Portanto, de cara, essa seria – e foi – a minha principal dificuldade: correr sozinho 42 km não é mole! E o Tarso é garantia de papo para uma ultramaratona...rs

Porém, não foi a única dificuldade. Outras vieram pelo caminho. No fim de janeiro, lesionei a panturrilha em um treino bobo com o amigo Iúri Totti. Voltei logo após o Carnaval. E, quando ia engrenar nos longões, a pouco mais de um mês antes da largada, voltei a sentir a perna. Fui ao médico e triatleta Sérgio Maurício, que não jogou a toalha. Disse que, se eu fizesse tudo direitinho, ainda teria tempo.

Passei então aquela semana de molho, só pedalando na academia e iniciando a fisioterapia. Na semana seguinte, voltei a correr. Resultado: fui para a corrida tendo feito apenas dois treinos longos, um de 20km e outro de 25 km.

Viajei no 28 de abril, chegando no dia 29, quando peguei o kit da prova, promovida por uma rede de academias (Good Life Fitness). Na véspera, fiz um turismo leve, para não andar demais, e à noite comi aquela massa preparada pelo casal de amigos que me hospedava. Aliás, a visita aos dois foi o motivo da viagem. Nesse dia, descubro que havia outra maratona com largada em frente ao prédio onde estava, era só descer...rs

Mas lá fomos nós para a largada mais distante. Meu amigo Bruno Cerbino, que acordou cedo para nos levar e comprou o café especial (banana, aveia e óleo de coco = receita do nutricionista Bruno Chlamtac), e minha mulher, Fernanda Freitas, que largou uma hora depois para a sua primeira meia maratona. 

Ah, na véspera, tive que comprar um casaco contra o vento e a chuva, porque essa era a previsão do tempo. Não deu outra. E essa foi a última dificuldade.

Depois de um tempo na fila do banheiro, como nos meus primeiros 42 km, me despedi de Fernanda e Bruno e larguei com chuva e sensação de 4 graus. Antes, li um bilhete de incentivo que o Tarso mandou me entregar. Show!

A primeira metade da prova foi a pior por causa do psicológico. Havia marcação do percurso a cada quilômetro. E, sem a companhia para me distrair em uma conversa, parecia sempre que faltava uma eternidade.

Com o frio, foram alguns pit stops no caminho para fazer xixi. O primeiro em uma cafeteria famosa no país e os demais em banheiros químicos. Prova com boa estrutura. A cada parada, ganhava um novo gás...rs

Também fiz alguns alongamentos rápidos durante o trajeto, devido a um incômodo no joelho. Foram fundamentais. Dica do fisioterapeuta Rodrigo Pinheiro.

Nessa primeira metade, a prova se encontra com os corredores da meia, mas não avistei Fernanda. Após os 21 km, relaxei um pouco, pois vi que tinha condições de completar, a panturrilha não incomodava e a marcação de quilometragem ficou mais espaçada.

Aí veio o vento contra, pois a metade final era beirando o Lago Ontario. Andei alguns trechos nos pontos de hidratação a partir do km 30, confesso. Mas do km 37 até a chegada, engatei direto nos 5 kms finais, tamanha era a vontade de chegar.

A comemoração
Comemorei da mesma forma que no Rio, levando os braços para o alto. Se bem me lembro, cheguei ouvindo uma música do The Who. À direita, avistei na grade: Bruno, sua mulher Fernanda com a irmã Luciana e mais a minha Fernanda, que também completou a sua prova.

Minha recepção
Foi emocionante. Terminei me sentindo bem. Recebi uma medalha gigante e me enrolei naquelas “mantas” de alumínio contra o frio. Sempre quis isso...kkk

Fernanda, eu e as medalhas
Já estou seco para voltar, pois me dei uns dias de férias, como um jogador de futebol após a temporada...hehe

Se vou tentar outra? Certamente. Só não penso mais em treinar no calor escaldante que faz no Rio nos meses de janeiro a abril. Portanto, provavelmente, a próxima prova será no segundo semestre de 2017.

Para quem se interessar, eis o link da corrida: http://www.torontomarathon.com/ Muito bem organizada e utilizada pelos interessados em se qualificar para maratona de Boston, por causa do percurso. Bem, é o que dizem.

Outra maratona na cidade: http://www.torontowaterfrontmarathon.com/

Abs

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Correndo por aí (II) : Quissamã, RJ

Após um breve período de volta ao trabalho, eis que chega o carnaval e com ele novamente uma viagem com a família, desta vez para Quissamã, município do norte do Estado do Rio de Janeiro.
A cidade, de pouco mais de vinte mil habitantes, além de muito tranquila e organizada, é muito importante por conservar patrimônios históricos relacionados à produção de açúcar do Brasil.

Continuando meu exercício antropológico iniciado com Tegucigalpa, pude ver que a cidade contém uma malha cicloviária importante e muito usada pela população, devido à escassez de transportes públicos. No entanto, não vi outra pessoa que não eu a praticar a corrida pelas ruas do município.

Estive todo o tempo hospedado na Praia de João Francisco. A via de acesso mais utilizada é uma estrada asfaltada de cerca de 8km. Ela foi minha única alternativa para me manter ativo.

Comecei apenas na segunda-feira de carnaval, pois temia a quantidade de motoristas alcoolizados na via. Escolhi a data, pois neste dia quase todos se concentraram no Centro para o bloco das piranhas. Eu não perdi essa e, após retirar meus trajes femininos, enfrentei o desafio, que repeti na quinta-feira e que pretendo repetir amanhã  (minha despedida com um longão de 12km).

Apesar da falta de asfalto e das placas avisando sobre os animais silvestres e as cobras (??!!!) ocasionais na pista, pude me manter concentrado ao máximo. Ao fim obtive nos dois treinos tempos muito bons.

Foi a chance para experimentar meu novo par de tênis, provável companheiro para a maratona: o Brooks Ghost 7. Confesso que já o considero o melhor tênis de corrida que já tive em todos estes anos correndo. Meus novos pares de tênis serão tema de uma pastagem próxima.

Termino por aqui dizendo que agora me sinto definitivamente próximo da prova (apenas 16 semanas) e preciso me concentrar de vez neste novo desafio, que é mais difícil do que o do ano passado, pois agora a Maratona não é mais uma novidade. Focar-me nisto está muito difícil, eu confesso. Espero que o Rodrigo possa voltar logo pra gente botar o papo em dia (rsrs).

Um abraço e até logo!

Vista da estrada que liga o centro de Quissamã à Praia de João Francisco 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sabe quem é o tal do sóleo???

Fonte: RBCP

Já ouviu falar no tal do sóleo? Gastrocnêmio? Pois é, a corrida nos apresenta a nomes que antes desconhecíamos.

Depois da tal da banda iliotibial, que já lesionei três vezes, agora é a vez do sóleo, inicialmente a suspeita era do gastrocnêmio...rs

Em português: são músculos da panturrilha. O sóleo parece ser mais profundo. Foi onde arrumei um estiramento grau 2. Resultado: o último treino foi em 10 de janeiro e só volto a trotar após o Carnaval.

Corro desde 2011 e esta foi a quarta lesão. Perguntei ao médico se não era muito e ele disse que, em média, um corredor se machuca uma vez ao ano, é inerente ao esporte de impacto que faz bem para a cabeça. Li, em outra fonte, que cerca de 50% dos corredores se machucarão por ano. Nem tudo são flores...

“E se eu corresse 5km todo dia? Seria menos lesivo?”, perguntei ao médico. “Só se fosse bem leve. O ideal é dar um intervalo de recuperação”, me respondeu. Por isso, ele faz triatlo.

Mas eu não gosto de água gelada e andar de bike (que é o que posso e vou fazer para não ficar parado) só na academia, por causa da violência.

Sempre digo ao meu treinador que minha meta é atravessar o ano sem lesão, pois ficar um mês parado é muito ruim para minha mente ansiosa, além, claro, de perder o condicionamento.

Creio que tenha acontecido por ter atropelado a planilha em algumas ocasiões, pulando etapas. Vivendo e aprendendo cada vez mais.

Vida que segue. Sou movido a desafio, superação. O meu tem sido buscar o equilíbrio e minimizar os riscos, sem perder as metas de vista! Próxima? Segunda maratona.

Aos poucos vou aceitando: correr apenas para desopilar já não me basta. Sigo em frente enquanto tenho saúde para esses objetivos maiores.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Pernas pra que te quero


Quando comecei a escrever no blog, pensei: “como arrumar tanto assunto sobre corrida?”

Mas você começa a viver esse mundo do esporte e percebe que há muito mais que pensava.

Por exemplo, decidi me enfiar numa prova que é só descida, não pela facilidade aparente, mas porque vou visitar amigos no Canadá, onde a corrida acontece. Depois descobri que muitos participam dela para se qualificar para a Maratona de Boston.


Ao contrário do que a maioria deve pensar, descer não é tão fácil quanto parece. E eu resolvi pesquisar a respeito, pois tinha quase certeza que corria errado, ‘me segurando’. Aliás, corro. Tinha razão.

De tudo o que eu li e vi sobre a mecânica, o mais elucidativo foi um vídeo da soürun. Em resumo:

- Frear acentua o impacto;

- O correto é aumentar a frequência das passadas, diminuindo o tempo de contato com o solo, vejam no vídeo:


Ao menos para mim, descer parece bem mais complicado que subir. Vamos aos treinos!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Correndo por aí: Tegucigalpa

Não sabia como seria minha vida pós-maratona. Muita coisa se passou desde o glorioso 26 de julho: muito repouso para curar lesões, problemas com medicamentos de uso contínuo, muita preguiça, muitos quilos que ganhei, mas muita alegria por estar vivo.

Desde o início de dezembro venho tentando retomar os ritmos dos treinos: sem sucesso. Seja por conta dos filhos, pela correria da entrega dos diários na escola ou pela hérnia que insiste em avisar que permanece viva por ali.

Este ano partimos de viagem para Honduras, na América Central, a fim de ver a família e celebrar mais um ano de vida da minha pequenina.

Em homenagem ao sétimo aniversário da minha mais velha decidi sair finalmente para correr. Após muito conversar com familiares, decidi fazer o que fazem todos por aqui: correr na pista de corrida do Estádio Olímpico de Tegucigalpa.

Ué, mas as pessoas não correm nas ruas por aqui não? Pois é, as ruas são praticamente desertas, pois a sensação de insegurança é grande e permeia a sociedade. Tegucigalpa, segundo dados recentes, tem a sexta maior taxa de homicídios do mundo 79,42 homicídios por 100 mil habitantes. Por isso, os carros tomam conta das ruas, pois, para piorar, o transporte público é péssimo e deficiente, além, claro, de inseguro.

A cidade não é muito diferente das nossas no Brasil e, a despeito de toda a fama adquirida por Honduras no cenário mundial (outra grande cidade hondurenha, San Pedro Sul, no norte do país, é a líder do ranking), nunca tivemos problemas em todas as vezes que visitamos o país. 

De toda forma, a pista de atletismo do Estádio Olímpico está nova em folha, havia policiais por todas as partes e as pessoas eram muito agradáveis (como sempre).

Pude, afinal, fazer meu primeiro treino do ano rumo à segunda maratona, uma corrida de 40 minutos ao redor da pista de 400 metros. Voltei cedo,  a tempo ainda de acordar minha filhota ao som de "Las Mañanitas".

domingo, 26 de julho de 2015

Fui para a guerra e venci

Já comecei um post assim, mas não posso deixar de fazê-lo novamente. Obrigado, Tarso. Amigo que fiz e companheiro deste blog, deixou de concluir sua prova em um bom tempo para me acompanhar e garantir que eu completasse os 42km. Não teria conseguido sem ele e Jesus, colega de equipe que também nos acompanhou.

Minha corrida foi de total superação. Há 15 dias, vinha convivendo e tentando tratar uma dor no joelho após o longão de 34km. Na quinta, antes da prova, fui testá-lo em um treino leve com o Tarso e a Isa, e senti que a coisa estava feia. Corri direto para uma clínica de ortopedia e fiz ressonância no mesmo dia. Um amigo médico conseguiu antecipar o resultado por telefone, que confirmou minha lesão, estava com edema no joelho, a três dias da largada.

Decidi fazer uma infiltração, primeiro por mim mesmo, que me impus esse desafio e treinei tanto; segundo, por todos que acompanharam a minha saga de disciplina nos treinos. Era uma ocasião especial. Se fosse a segunda maratona, acho que não correria lesionado.

No caminho para o início, no Recreio, assistimos a um vídeo, na van, que minha mulher, Fernanda Freitas, preparou, com ajuda do Rossy, nosso treinador, que colheu depoimentos de familiares aos corredores da equipe. Além desse incentivo, havia meus pais na chegada, pela primeira vez. Corri com as iniciais deles (Paulo e Isa) escritas a caneta em cada pé. Eles também escreveram uma mensagem de apoio que levei comigo para os momentos críticos, assim como a Fernanda e o meu enteado João Guilherme. Foram lidas após os kms 20 e 30, não lembro em qual km exatamente.


Dada a largada, logo começou o meu tormento mental e físico. O joelho infiltrado começou a se manifestar, quando achei que ficaria anestesiado, ao menos em boa parte da prova. Pensei em desistir nesses primeiros quilômetros. Como poderia suportar aquela dor por 42km? Mas lembrei de tudo que estava em jogo e das pessoas que acreditaram em mim. Então, insisti.

Ao completar 10km, percebi que dividir a prova em quatro trechos de 10km seria uma boa estratégia para o cérebro. Na Praia da Reserva, ainda no Recreio, havia pequenos trechos de paralelepípedo na transição do asfalto, que maltratavam o meu joelho. Mentalizei que a dor era passageira, como havia visto em um vídeo na noite anterior, compartilhado pelo Everton, treinador da equipe.

Passei a pisar de um jeito que tornasse a dor menos insuportável, o que me causou uma bolha debaixo do pé e outra dor, no glúteo, ambas do mesmo lado. Aos 15km, incrivelmente a dor no joelho adormeceu até a subida do Elevado do Joá, quando o piso inclinado das curvas a trouxe de volta. E foi assim até o fim. Quem já teve lesão na banda iliotibial sabe como é.

Na Avenida Niemeyer, mais uma subida. Cheguei a caminhar por um breve pedaço, breve mesmo, porque logo percebi que era pior para a dor e seria ainda mais difícil retomar. A essa altura, liguei o som para me dar um gás. Tarso e Jesus seguiam mais à frente um pouco, mas sem me perder de vista.

Depois que passei por Leblon e Ipanema, veio a parte mais crítica para mim: Copacabana. Ali, o tempo ficou mais abafado e o cheiro de gordura dos quiosques era forte, péssimo para quem controlou também o enjoo por toda a prova. Seguindo as dicas que li, não mirei a orla para não ver o Leme distante e abalar o psicológico. Olhava para o chão ou para os prédios à minha esquerda.

No km 37, meu enteado João Guilherme me encontrou com Fernanda. Tarso e Jesus, então, aceleraram e eu segui com João me puxando, bastante emocionado pelo encontro. Dali em diante, os poucos incentivos de desconhecidos ao longo do trajeto aumentaram e cresceu a sensação de término de prova.

João Guilherme me puxando

Quase na chegada no Aterro, Rossy me encontrou para me puxar também, mas pedi que não acelerasse, pois não conseguiria administrar. Na reta final, ele e João Guilherme tiveram que me deixar e Isabelle me levou nos últimos metros.

Avistei meus pais do lado direito, onde também estavam Fernanda e Pilar, uma amiga nossa. Levantei os braços, me emocionei pelo encontro mais uma vez, mas não desabei no choro como achei que desabaria, muito provavelmente pela dor que me incomodava e que carreguei por 42km.

Quando a corrida vira algo sério em nossas vidas, amigos e familiares gostam de te apresentar como maratonista. E eu sempre tinha que explicar que não era bem assim. Havia uma distância muito grande. Agora, estou à vontade com o cartão de visita...rs

Fui para a guerra e voltei, literalmente.

Tarso, amigo, quando é a próxima? Você escolhe!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Gracias a la vida!



Sim, podemos fazer isso! Rumo aos 42 quilômetros!
Na última terça-feira dia 21/07, levantei como de um salto às duas da manhã.  Eu havia ido dormir antes das 22h após colocar as crianças para dormir. De repente podia ser fome, logo tomei um leite. Os minutos se passavam e eu não conseguia pregar o olho. Tentei ver um pouco de tevê: nada feito. Liguei o Kindle: negativo, sem paciência para ler. Fechei os olhos e quase imediatamente tive o que chamo de crise de ansiedade: taquicardia, um pouco de desespero e... lá estava o medo de não completar a prova. Fiz minhas orações, dormi no sofá da sala pra não incomodar ninguém e finalmente, consegui dormir.

Esta foi a primeira vez que tive uma crise de pânico ou ansiedade mais intensa desde o ano passado, quando precisei ficar de licença médica por muitos dias. Aquela situação extrema ocorrida em 2014 foi o sinal de que algo estava indo mal. 

Passado o turbilhão,  decidi voltar a praticar exercícios físicos de forma séria e daí surgiu a maratona, como uma forma de deixar a doença definitivamente para trás. A corrida, que sempre me ajudou a relaxar, aliviar minha ansiedade (exatamente como o Rodrigo trouxe anteriormente), não podia funcionar sozinha, daí a necessidade de psicoterapia, fármacos e, principalmente,  Deus.

Seja como for, passei a terça-feira feira inteira tentando entender o que acontecera. Eu havia ido da euforia à derrota em pouco tempo! Estava (e estou) tão animado com a premência da prova que nunca havia me passado pela cabeça não conseguir completar. Eu havia dito à Dani Sixel e à Fernanda Monteiro que estava preparado. E realmente estou!

Buscando explicações, encontrei algo. Em primeiro lugar, a reportagem passada no Esporte Espetacular de domingo último (veja a reportagem aqui). O corredor que teve uma parada cardíaca no km 18 da Golden Four deste ano no Rio de Janeiro. Exames em dia, treinamento completado sem problemas, 14 meia-maratonas anteriores, mas alguém que não soube ouvir o corpo, afinal tivera um cansaço antes da subida do Joá. Um médico vindo a menos de 100m atrás lhe salva a vida. Anjo da guarda? Deus? Sorte? Acaso? Fatalidade? Não sei explicar. Poderia ter acontecido com qualquer um, mas por que justo com ele? Terei eu a paciência de ouvir meu corpo? Encontrarei ajuda se precisar? Ok, lição número 1 (ou algum número acima de 1 bilhão) aprendida.

Por último, a imagem do Fabinho (um de meus ícones neste esporte tão profissional, e tão amador) quebrando exatamente a uma semana da prova. Uma lesão que apareceu no momento errado e que talvez não possa ser tratada a tempo me fez concentrar-me na minha própria queixa dos últimos meses: meus pés. Estou há um tempo sem conseguir me tratar corretamente. Minhas dores quase sumiram, mas ainda estão lá.

Por este estado de coisas, decidi não treinar ontem (terça-feira). Quero dar descanso aos meus pés e à minha cabeça.

É hora de buscar lá atrás as motivações que me fizeram correr esta distância: minha saúde, o carinho da minha família- uma forma de agradecê-los por tudo: minha mãe e meu pai, por todas as perfeições e imperfeições e por nunca desistirem de mim, meu irmão, amigo e companheiro (talvez de quem eu mais sinta falta na vida), a felicidade que é estar ligado por laços eternos à minha esposa e pelas crianças maravilhosas que me deu. Seja qual for o resultado, sei que estarão lá pra me apoiar como sempre fizeram. Aos meus irmãos da Igreja, meus alunos e colegas de trabalho que me motivam a ir mais longe. Aos colegas corredores e ao Rossy, pela companhia e sorrisos a todo momento. A Deus, minha maior motivação. Não importa o quanto eu corra, só aí encontro paz.

Isabelle e Rodrigo, companheiros deste blog, pela grande equipe que pudemos formar, esperando que esta seja apenas nossa primeira parceria. Sei que vamos conseguir isto juntos.

Everton, seguirei seus conselhos à risca: esta semana será cheia de positividade!!!!! Obrigado pela serenidade e experiência. A chegada é logo ali!

Este é meu último relato antes da prova. Termino deixando uma música de uma das minhas preferidas: Mercedes Sosa. Estivemos presentes na última vez em que esteve aqui no Rio de Janeiro, poucos meses antes de morrer e me surpreendi com a sua garra ao superar suas dificuldades físicas (como locomover-se) para impostar sua voz inconfundível. Por isso, obrigado à vida por tudo o que me dera. Desejo, através dela, que cada um desses anônimos corredores consiga completar a prova, gente como eu, com suas dificuldades, trabalho, família, dramas pessoais. Aos amigos da Upsports minhas especiais orações e o meu muito obrigado!


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Devagar e sempre: os amigos e a corrida

Daqui a treze dias se tudo der certo eu estarei cruzando a linha de chegada junto com o Rodrigo, um pouco depois da Isa, do Fabinho, do Leo, do Jorge, do Thiago, do Cristiano e da Marise. Na verdade não importa o fato de chegarmos antes ou depois dos outros, mas a eufórica esperança, quase uma certeza: a de que chegaremos. Da ideia de correr a maratona até hoje já se vão quatro longos e intensos meses. Neste período eu, Isa e Rodrigo conseguimos fazer três treinos juntos e a experiência  foi válida, muito agradável.

Por conta de horários, eu e Rodrigo acabamos nos aproximando e fizemos os dois últimos longões juntos: dias 5 e 12 de julho, ambos em domingos, ao contrário dos demais, que treinaram no sábado. Sim, domingo, exatamente porque amigos aparecem exatamente nessas ocasiões. Neste caso na dificuldade de conciliar a vida particular com a prática esportiva. No domingo retrasado eu não poderia treinar no sábado, preparando a festa de aniversário da Marthinha e Rodrigo apareceu prontamente disposto a  trocar seu treino de sábado para domingo, afinal vinha se recuperando de forte gripe, como contou-nos em outro post. Ontem, pelo contrário, o pedido era dele para que treinássemos no domingo por conta de sua pós-graduação no sábado (Rodrigo quer se tornar o pica das galáxias na área de marketing, jornalismo, vendas, gestão, mídias sociais... rsrsrs). Topei na hora, pois prefiro o treino aos domingos. 

No entanto, surgiu um compromisso na Paróquia onde frequento e sou responsável de uma comunidade do Caminho Neocatecumenal e não podia faltar de nenhuma forma. Resultado: pedi ao Rodrigo que nos encontrássemos na Praia de Icaraí às seis da manhã (!). Isso porque eu sairia cerca de 25 minutos antes pra dar tempo de aparecer na reunião ainda de manhã.

Confesso que não foi nada agradável correr com a Estrada Fróes totalmente às escuras, afinal também tenho medo de ser vítima da violência que assola a nossa bela cidade de Niterói. Segui em frente, certo de que aquela seria a última vez em que eu me levantaria às cinco da manhã para treinar para a Maratona do Rio.

Tudo correu conforme o planejado: corremos soltos, com a sensação de que ainda podíamos fazer mais. Íamos conversando e relaxando, era divertido ganhar os quilômetros que se acercavam! Desta vez não só eu falava, mas Rodrigo também conversava, sinal de que o treino não era um fardo. Em certo momento eu o disse que estávamos indo muito devagar, mas desistimos de apertar o passo, pois não era tão lento assim. 

Nunca escondi que o meu maior objetivo era terminar a prova e se estivesse inteiro ao fim, melhor.

É inevitável a imagem da lebre e da tartaruga vir à mente, na certeza de que nossas passadas firmes nos levarão ao final.

Encontrei esta imagem na web. Já diz tudo! 

Espero que no dia 26 de julho, apesar do nervosismo e da ansiedade, eu possa me divertir durante a prova, exatamente como eu me diverti neste domingo.

Estas duas semanas que tenho pela frente serão para imaginar como será minha chegada, minha família a me esperar. Vai ser lindo. Vou chorar? Não sei, mas sei que a linha de chegada vai significar também mais um par de amigos (Rodrigo e Isa). É disto que é feito a vida e a corrida.

E como diz o Rossy: "Força na careca"!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Correndo na beca

Como alguns já sabem, minha vida de corrida se deu, no início, pela falta de dinheiro para pagar uma academia, devido ao fato de ser estudante universitária. O que para mim, hoje, é com muito orgulho quando "encho" a boca de palavras para contar a alguém que me questiona por que comecei a correr.

A falta de minhas postagens, infelizmente e felizmente, se dá ao fato de eu estar chegando ao final de uma longa jornada. Provas e mais provas!! rsrs... "MANHÊ TÁ ACABANDO!!"

                   Foto de Formatura da Turma de Medicina Veterinária-UFF                  
Não poderia deixar de relatar aqui no blog mais essa conquista

Apesar das postagens terem diminuído, os treinos estão apenas aumentando.
Domingo passado (21), fiz meus primeiros 29km na companhia dos colegas da Equipe de Fibra, Cristiano, Marise e Marcio, e contando sempre com a ajuda e apoio do meu namorado nos primeiros 6km. (Aliás, fico muito orgulhosa de ter incentivado meu parceiro a dar início nessa vida viciante. Ele fará a Family Run no mesmo dia em que faremos a maratona).

Foram 3h e 4minutos de corrida sem parar, apenas com caminhadas durante a hidratação e reposição energética (gel de carboidrato). Neste dia, ao completar o treino fiquei em dúvida se conseguiria ir adiante por mais 13km (o que restaria para completar os 42km da maratona). Ao expor essa dúvida ao treinador, ele me acalmou dizendo que estes eram apenas os treinos, que ainda há vários pela frente, para eu ficar tranquila e não pensar nisso. Completar cada um dos treinos da planilha por vez, deixar a ansiedade de lado. E isso realmente me acalmou.

Foto após os 29km

No último sábado (27), eu e Marise corremos juntas novamente. Ela começou antes, pois iria percorrer 30km. Nos encontramos no km 9 do percurso dela, e assim nós poderíamos completar o treino juntas, eu com 21km e ela, com 30km.

Comparando-se com a dificuldade do treino de semana passada, esse semana foi molezinha rsrsrs. Faz parte de uma planilha de treinos esses altos e baixos da quilometragem.


Estou em contagem regressiva, ainda me faltam cinco provas universitárias e uma maratona para completar mais uma etapa.

Lembrando que só me formarei no final do ano. No curso de Medicina Veterinária, o 10º período (2º semestre de 2015) é apenas realizado em forma de estágio, confecção e apresentação de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).

terça-feira, 23 de junho de 2015

No asfalto e na tela: Maratona do Amor


Sempre gostei muito de cinema e sempre quis escrever sobre filmes de corrida, ou que se relacionassem com ela de alguma forma: filmes esportivos, superações, dramas, comédias, etc. Abre-se então, uma nova coluna no nosso blog e sempre que possível, os filmes também farão parte do blog, além das resenhas de livros.

Lembro-me de ter visto "Maratona do Amor" (Run Fatboy Run, 2007) quase meio sem querer, buscando aleatoriamente filmes na locadora, para distração. Obviamente me diverti bastante com o filme e me surpreendi com o ator principal, Simon Pegg, até então quase desconhecido para mim (depois o vi atuar em diversos outros filmes com a mesma competência e pitada de humor inglês). Ahh, o filme foi dirigido por David Schwimmer, o "Ross Geller", de Friends!



Narra a história de superação envolvendo Dennis (Simon Pegg), que sofre com o estigma de irresponsável por nunca conseguir concluir nada na vida, fugindo dos problemas, deixando, inclusive, sua ex-noiva Elisabeth (Thandie Newton) grávida, no altar. Dennis se dá conta do erro cometido e busca reconquistar a confiança e o amor de Elisabeth e de seu filho Jake (Mathew Fenton), mas para isso precisa provar para si mesmo que é capaz de concluir uma maratona. A prova se torna também uma disputa entre Dennis e o então namorado de Elisabeth, With (Hank Azaria).

Dennis, ex-fumante, sedentário e fora do peso, muda radicalmente sua vida, troca seus antigos hábitos e espera enfrentar Whit, um desportista exemplar.

Para além das redes que envolvem a trama, gostaria de destacar os aspectos que me tocaram na última vez em que revi o filme, já pensando na vindoura Maratona do Rio de Janeiro.


Durante a preparação, muitos foram os obstáculos a serem enfrentados por Dennis, que só conseguiu se inscrever correndo em prol da Disfunção Erétil. O desenho nas costas (e que eu não tenho) também é engraçado.


Um momento do seu treinamento, o esforço feito no dia a dia para conseguir alcançar sua meta.


O dono do imóvel em que ele reside e sempre atrasa os aluguéis, Sr. John Ghoshdashtidar (rsrsrs), apesar dos problemas que tinha com Dennis, se mostra um sujeito muito amável e o apoia bastante no seu projeto. Na foto o vemos presenteando o protagonista com um par de tênis novos.

As fotos abaixo remetem a instruções clássicas dos treinadores a quem se prepara para correr uma maratona: a ingestão de carboidratos  e a proteção aos mamilos. Detalhe no produto indicado por seu amigo Gordon para proteger os mamilos e, provavelmente, lubrificar outras partes...


O dia da prova começa caótico, pois Dennis acorda atrasado e não tem o tempo devido para sua preparação. Faz um alongamento nada convencional e, por fim, passa o gel nos mamilos.

"Run fatboy, run", diz Whit a Dennis, menosprezando sua força de vontade e persistência na busca de seu ideal. A resposta de Dennis é clara: "eu posso até perder peso, mas você sempre será um babaca". Ou seja, a nosso percentual de gordura não nos diz nada sobre nosso caráter.

Após uma breve disputa, ambos os corredores se veem lesionados, culpa de Whit. Para este, foi o fim da prova, enquanto para Dennis, representou mais um duro obstáculo a superar.

Ao recusar a ida para ser atendido no hospital (implícito no filme), nosso protagonista inicia sua própria maratona, mais dura que os simples 42 km, ainda que a organização da prova já a tenha encerrado oficialmente. Enquanto corre a passos lentos e sofridos, ele vive um drama, que é também o drama de cada um que o segue pelas já escuras ruas da cidade de Londres. O drama também é o de cada um, que inscrito na maratona, tem uma meta a alcançar, algo ou alguém por quem correr e seu sofrimento para alcançar este sonho.

A imagem abaixo ilustra o momento em que o corredor bate no muro que seu subconsciente cria para impedi-lo de continuar. Para muitos, esta barreira fica próxima ao quilômetro 30 da prova, quando muitos maratonistas, ainda que bem preparados fisicamente e dispostos a seguir, desistem da prova, mesmo sem entender o porquê. Parece que o cérebro simplesmente manda a mensagem de que não dá mais! Por isso a maratona é mais do que uma batalha física, ela é psicológica.


No auge do seu cansaço, prestes a desistir, ainda que lhe faltassem poucos metros para a chegada, ele vê a razão de estar ali, sua motivação e segue em frente. Uma força superior lhe vem de dentro e, num sprint final, conclui a maratona, correndo ao encontro de seus amores. Não importa o tempo feito, Dennis, de acordo com o filho, venceu a prova! Realmente, ele venceu! Alguém duvida?


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Perder as calças, ganhar a vida. Sobre corrida e emagrecimento

Semana retrasada estive no consultório da Dra. Fernanda Monteiro, nutróloga e também corredora na mesma equipe que nós três. Foi bom perceber que já baixei muito o peso desde o início do ano passado.

Em fevereiro de 2014 voltei de uma viagem com a família e percebi que havia extrapolado: beirava os 96 kg!!!!! Vi-me obeso pela primeira vez na vida. Esta viagem coincidia com uma feliz notícia: acabáramos de nos descobrir grávidos pela terceira vez e agora, do tão esperado menino.

Novamente, tal como ocorrera com o nascimento das minhas meninas, me prometi manter uma vida saudável e emagrecer e assim, poder viver muito para ensinar algo para meus filhos, mas, sobretudo, apreender o máximo de experiências que eles pudessem me transmitir.

Lembro-me bem de dedicar minha primeira meia maratona ao nascimento da Marthinha em 2012 e à felicidade que era e é conviver com a Milena.

Pois bem, desde que comecei a me preparar para a maratona venho me percebendo mais magro e, principalmente, mais saudável, cheio de vida. Não só a corrida me ajuda a emagrecer, como também a lenta mudança nos meus hábitos alimentares.

Sugestões da Dra. Fernanda Monteiro para uma vida saudável.

Apesar das lesões que venho tratando e da minha ansiedade, que me impede de seguir à risca a dieta alimentar, venho realmente perdendo peso, o cinto das calças está cada vez mais apertado e as calças estão cada vez mais frouxas.

Nos últimos dias, apesar da sensação de que emagrecerei mais um pouco, fui impelido a comprar calças novas. Logicamente fui em uma loja de departamentos e comprei duas das mais baratas, certo de que elas também durarão pouco.

Tenho a certeza de que isto é o resultado não dos meus treinos, cada vez melhores e mais regulares, como também da mudança de, pelo menos, 80% dos meus hábitos alimentares e da suplementação que estou seguindo sob supervisão médica (basta ver a foto dos produtos que tomo no post anterior feito pelo Rodrigo).

Se a maratona fosse no próximo domingo, não tenho dúvidas de que conseguiria concluí-la.

Termino por aqui torcendo para que eu perca ainda muitas calças. Meu ganho é muito maior e mais consistente.

                                                     2014                             Agora.
(não dá pra notar muito a diferença, mas eu me conheço, isso é que importa. Rsrsrsrs)
                                             


terça-feira, 2 de junho de 2015

Como diziam os veteranos...

Eu não treino para uma prova específica, eu treino para a vida. Eu treino porque gosto e porque isso se tornou meu hobby. Mesmo não conseguindo treinar como o planejado, o importante é treinar!

Semana passada não foi muito produtiva. Na terça-feira, eu deveria fazer um treino de 13km. Saí de casa com a expectativa de realizá-lo. Chegando na Praia de Icaraí, a vontade de usar o sanitário estava grande (para fazer o número 1 = xixi rsrs.... faz parte). Então, como sempre faço, segui em direção a um barzinho de esquina onde costumo pedir pra usar o banheiro, mas fui surpreendida com uma limpeza tão bem feita no mesmo que o cheiro de água sanitária me "intoxicou" de uma maneira muito estranha, de tal forma que saí de lá tossindo e sem ar. Parece uma história meio sem nexo, parece até mentira, meio inesperada, mas sim... essas coisas acontecem. Pronto. Isso foi o ápice do meio treino mal feito. Saí de uma expectativa boa para uma inesperada.

Dei um tempo, sentada num banco do calçadão da praia, esperando uma melhora e logo depois segui novamente com a corrida. No meio do caminho encontrei com o Cris e com a Marise, parceiros da Equipe de Fibra, que lutam por uma causa nobre - a Fibrose Cística (veja o post anterior aqui) - e os acompanhei durante um pequeno percurso. Devido a essa minha debilidade "intoxicante", só consegui fazer 8,5km.

Na quinta-feira, novamente meu treino seria de uns 13km, porém, intervalado em ritmos forte e mais lentos. Entretanto... chuva!!! E muita chuva... acabei não treinando também.


Na sexta pela manhã, mesmo com uma garoa fraca, levantei da cama, coloquei o tênis mais velhinho e fui correr. Minha intenção já não era fazer os 13km. Afinal, no dia seguinte (sábado) encararia novamente os 25km, de acordo com a planilha.

E não posso dizer que não gosto de correr com chuva, é muito bom: o calçadão da praia fica vazio, a temperatura, agradável e o tênis nem encharcou muito. Esses são os melhores treinos, os mais legais, na minha opinião. É lindo correr num dia ensolarado, digno de fotografia e postagem no Facebook, mas o dia de chuva é especial!!

Sábado, dia de realizar 25km. Infelizmente, aquela manhã não foi a mais gloriosa. Aprendi o verdadeiro valor da palavra QUEBREI. Não foi muscular, não foi queda de pressão, não foi físico. Foi puramente psicológico. Fiquei decepcionadíssima. Arrasada. No km 14, comecei com os (maus) pensamentos; no km 16, já comecei a caminhar e, daí até o km 20, aproximadamente, havia caminhado uns 2 km. Fui resgatada pelo carro da assessoria Upsports Club. Em todo momento, tive o apoio dos meus colegas Tarso e Rodrigo, porém, tristemente, isso não foi o suficiente para mim naquele dia.

Os veteranos Rossy e Fabinho disseram: "Isso é natural, acontece" e, assim, mais uma frase entrou para o meu menu de experiências. Mesmo sendo uma realidade não desejável.

No dia seguinte, domingo, fiz minha primeira corrida com obstáculos, a Bravus Race. Uma corrida exótica, diferente de todas que já fiz. Foram 5km de corrida entre 15 obstáculos dificílimos, em nível de treinamento para as Forças Armadas do Brasil.

A corrida aconteceu no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan) - RJ. As largadas ocorreram em baterias. Largamos eu e meu namorado (e com sorte encontramos um querido amigo, que junto de seus colegas nos ajudaram a superar as dificuldades da corrida), numa manhã chuvosa e fria, sem saber o que nos esperava ao longo de todo percurso. Muitos desafios, muita lama e muita água congelante. Foi uma experiência única, sofrida, mas que com certeza faria novamente.

E assim fechei o domingo, bem menos decepcionada. Nada como uma corrida após a outra para nos dar ânimo.


Como já diziam os veteranos, são nos treinos que temos que passar por todas as situações prováveis e possíveis que podem ocorrer durante a prova oficial. A chuva e a decepção por ter quebrado são uma dessas situações, tudo faz parte do treino. A meta é chegar no meu limite, ao extremo, para que no dia da prova, aquilo não seja mais um limite e nem um extremo.

Rumo à Maratona do Rio 2015!!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Na estante do corredor: Correr, de Drauzio Varella


"Correr é experimentar uma liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança."


Lembro-me de me deparar com o Dr. Drauzio Varella há cerca de três ou quatro anos no salão de leitura da Biblioteca Nacional, próximo à minha mesa de trabalho. Chamou-me a atenção o fato de aquele senhor parecer mais novo do que o que tantas vezes via na televisão. Também fiquei espantado com sua altura. Não sei se ele estava apenas visitando, esperando por alguém ou se viera, de fato, fazer uma pesquisa.

Sempre ouvi dizer que o Dr. Drauzio, além de bom médico e de excelente escritor e cronista, era corredor. Ainda que já o admirasse, o livro "Correr", lançado sob o selo da Companhia das Letras, no último dia 25 de maio, me surpreendeu. Não apenas pelo fato de que há vinte anos o Dr. Drauzio corre ao menos uma maratona por ano, feito por si só incrível, como também por humanizar sua figura, já que as constantes aparições na televisão o deram um status de celebridade nacional e, como tal, inalcançável a pessoas comuns como eu.

Tal qual um treinamento para a corrida, o livro se divide em duas partes principais, por meio de crônicas intercaladas: as experiências de vida que o ato de correr o proporcionam e explicações médicas sobre as principais questões que afligem os corredores. Desta feita, experiências adquiridas pelo autor nas maratonas de Nova Iorque, Boston, Chicago, Tóquio, dentre outras, sincronizam-se com explicações médicas para uma patologia que ele ou outro corredor possa ter experimentado concretamente. Há também a história da primeira maratona, a guerra ocorrida na Grécia na Antiguidade. Particularmente tenho a opinião de que tal questão não necessitava de tratamento, no entanto, entendo sua óbvia disposição na obra sobre o tema.

O grande objetivo do autor, ao meu ver, ao escrever o livro foi mostrar que a decadência não chega conforme os anos se avolumem. Pelo contrário, Dr. Drauzio Varella demonstra que não só seu corpo, mas sua mente insistem em se manter em plena forma e cumprir os diversos e crescentes compromissos que ele tem no dia a dia. A chegada emocionante e o abraço apertado nas duas filhas ao conquistar a vitória pessoal, completando a Maratona de Boston em 2014 com o impressionante tempo de quatro horas e dois minutos, não só comprovam a tese do autor, como também nos servem de alento para nunca desistirmos da prática de exercícios e da manutenção de uma vida saudável.

O autor, como todo maratonista ou corredor de rua, passou e passa por tudo aquilo que passamos. Quem nunca ouviu a frase: "Ihhhh, não faz isso não, isso faz mal ao ser humano!" Ou, quem nunca ao correr na rua percebeu olhares tortos ou comentários jocosos dos transeuntes, principalmente se estamos correndo antes de o sol nascer ou em dias ensolarados, propícios a uma praia? Quem nunca deixou de ir a um evento, uma festa, visando dormir cedo a fim de se preparar para uma prova? O livro é uma fonte de argumentos para podermos seguir em frente. Como disse certa vez José Saramago, "todo Homem é uma Ilha". Só quem já teve a experiência de enfrentar muitos quilômetros correndo sozinho pelas ruas pode sentir a multiplicidade de emoções que tal solidão provoca.

Chamaram-me a atenção duas questões tratadas no livro: (a) como o sacrifício pessoal lhe trouxe recompensas e (b) os relatos da primeira maratona (Nova Iorque, 1993) e da Maratona do Rio de Janeiro, em 2013. Estas últimas questões acho que nos tocam diretamente.

Não são raras as vezes em que Drauzio Varella relata os ganhos físicos, mas principalmente psicológicos que a corrida lhe trouxe. Apesar da dificuldade, do sofrimento que é para todos acordar de madrugada, justamente no horário em que o sono é mais arrebatador, o médico e escritor compartilha conosco a sensação de paz que se instalava no fim das corridas e que permaneciam durante todo o dia, ajudando-o a enfrentar a dureza dos compromissos. Ainda: tal qual nos relatou Rodrigo, em recente postagem, doutor Drauzio conseguiu, a partir de então, controlar melhor a ansiedade e a agitação da vida atribulada que sempre levou, tornando-se mais confiante, disciplinado e sereno.

A história de nossas provas é, definitivamente, a história de nós mesmos. O livro, narrando a história das provas completadas pelo médico, assim como outras aventuras (e desventuras) relacionadas à corrida, nada mais faz que trazer à tona suas lembranças mais singelas nos seus setenta anos de vida.

Para quem aguarda ansiosamente a chegada do glorioso dia 26 de julho quando, finalmente, esperamos completar a nossa primeira maratona, os capítulos relacionados à primeira maratona, em 1993, e à Maratona do Rio de Janeiro, em 2013, são tocantes. Não há como não se emocionar e não sofrer junto com Drauzio ao ler sua chegada em Nova Iorque, nem como não ser tocado pela linda descrição do percurso dos 42km da Maratona do Rio de Janeiro. Confesso que imaginei-me no dia da prova, foi irresistível.

Leitura imperdível, leve e agradável. Nos vemos por aí.


"Impossível imaginar quem eu seria hoje se eu não tivesse começado a correr" 

Corro para acalmar a mente

Muitas pessoas se espantam quando falo que sou um poço de ansiedade: “Nossa, você disfarça muito bem...”, dizem.

Disfarço involuntariamente talvez, mas ao custo de uma explosão interna de pensamentos. Minha cabeça está o tempo todo no futuro ou no passado, imaginando situações caso tivesse tomado decisões diferentes.

Acho que, se me consultasse com um especialista, certamente ele recomendaria um ansiolítico. Mas fujo disso de várias maneiras, ou tento...


Na ida ao trabalho e no retorno, por exemplo, preciso sempre de uma leitura à mão, seja um jornal ou um livro, para ocupar a mente. Não suporto ficar esperando ônibus para o Rio. Então, cada vez mais tenho ido de barca, para a cabeça não ficar divagando no ponto.

Também ficar muito tempo em casa me dá aflição, ainda mais com programações na maioria ruins na TV. Sábado à noite então nem pensar. Invento sempre um programa. Até que depois que assinei Netflix arrumei um passatempo. Provavelmente só minha mulher perceba o quanto sou ansioso.

Já li mais de um livro sobre o assunto. O que mais gostei foi “Como domar um elefante: 53 maneiras deacalmar a mente e aproveitar a vida”. Te ensina algumas técnicas na hora do aperto, como fazer respirações profundas.

No trabalho, preciso repassar todos os dias as tarefas na agenda. Senão, quero fazer mil coisas ao mesmo tempo e não foco nas prioridades. É o caos da internet, mas não sou da Geração Y com a capacidade de realizar várias tarefas concomitantemente, graças a Deus... Outro sintoma é que acho que as horas nunca são suficientes. No fim das contas, a maioria das previsões não se verifica.

Ficar na tela do computador sem ter o que fazer é entediante para mim, pois meu universo na web é muito limitado. Vejo emails, sites de notícias, Facebook, Linkedin, as estatísticas do blog e ponto. Acabou!

Mas a ansiedade tem o seu lado bom também, desde que controlada, o que é bastante difícil. A inquietude traz produtividade na profissão. Além disso (e finalmente, leitores...rs), foi por causa dela que me meti na corrida, em um período profissional muito turbulento, em que precisava aquietar o raio da mente.

E é assim que venho tocando a vida e fugindo de tarja preta: correndo, lendo, respirando fundo, saindo de casa, vendo uma série da internet, enfim, vivendo. Já diz o ditado: “Mente vazia...” kkkkk

Até a próxima!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A moedinha da sorte de R$ 1

Havia prometido escrever sobre superstições em um post sobre lesões. Não sei se elas afloraram após as contusões que tive, mas o fato é que sempre fui supersticioso (não apenas na corrida) e também uma pessoa de fé, apesar de não praticante da minha religião. Por isso, este é um post sobre minhas crenças de sorte, azar e em Deus. Confiram:  

- Quando era repórter, só comentava sobre minhas boas matérias com as pessoas depois de publicadas. Achava que dava azar, que perderiam o peso na edição, ou temia que o assunto vazasse. Da mesma forma, não gosto muito de falar sobre o treinamento para as provas. Prefiro comemorar após as chegadas. Abri uma exceção para este blog (rs) porque agora o desafio é grande (42k) e vejo como uma forma de aumentar minha motivação e disciplina. Afinal, todos estão me vendo;

- Quando estava me preparando para os 15k em Floripa, comprei um sabonete de sal grosso. Já tinha usado em outros momentos, mas acho que não corria ainda;


- Durante os treinos para Floripa, sem perceber, corri uma vez com uma moeda de R$ 1 dentro do tênis. Claro que guardei e levei o sinal de sorte para a prova, hoje fica na carteira;

- E, falando em dinheiro, também não gostava de levá-lo comigo para o caso de 'quebrar' e precisar pegar um ônibus para voltar. Também dá azar! rs Por isso, fiquei feliz de ler no fim de um post do Tarso que um super corredor fazia o mesmo, ainda que ele tenha falado em figura de linguagem. Hoje só levo a grana porque preciso comprar água no caminho nesses treinos mais longos, a que levo no cinto de hidratação já não é mais suficiente para 25km;

- Sempre rezo um Pai Nosso antes de começar um treino e costumo agradecer no fim quando a exaustão não me faz esquecer;

- Quando o bicho pega no treino, peço uma forcinha aos céus para prosseguir, pois como diz o amigo Iúri Totti, do Pulso: "treino bom é treino feito";

- Em momentos difíceis, de dor, treinos mais puxados etc, me benzo antes de sair de casa com um potinho de água benta. Tem a imagem de João Paulo II, trouxe da Basílica de São Pedro, em 2005, para minha sogra, que era uma pessoa muito boa;

- Quando passo pelo Centro do Rio, também costumo entrar na Igreja de São José e me benzer com água benta, independentemente do objetivo, já que sempre tenho um em vista, em todas as áreas;

- Por fim, e isso não tem nada a ver com o post, ouvir certas músicas e mentalizar coisas boas, como imaginar a chegada em uma prova esperada, também me ajudam nas passadas. Bem, mas a playlist e os bons fluidos são assunto para outra publicação. Temos tempo até 26 de julho! ;)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Na estante do corredor: Correr, de Jean Echenoz

A leitura é um de meus hábitos preferidos. Sempre tenho livros na mochila e não é incomum que eu deixe de notar alguém por estar lendo naquele exato momento. Junto com minhas primeiras passadas vieram também os primeiros livros sobre corrida.

Inauguramos aqui mais uma das seções do nosso blog: "Na estante do corredor", onde pretendemos incluir os livros que marcaram nossas práticas esportivas e pessoais, ou mesmo outros de que gostamos e foram importantes ou não num determinado momento. Nisto contamos também com a ajuda do nosso público leitor do blog, indicando outras obras ou mesmo trazendo resenhas de livros de corrida ou de histórias emocionantes do esporte.

Como um bom bibliófilo, compro livros, aproveitando uma boa ocasião, prometendo-me lê-lo num momento posterior. Isto aconteceu com o livro que lhes apresento hoje, comprado numa promoção de 50% feita pela Livraria Cultura. "Correr", do francês Jean Echenoz, é um livro curto, de fácil leitura, bom para todas as ocasiões. Confesso que como bom historiador senti falta dos marcos cronológicos, que ajudam a pontuar os acontecimentos mundiais. Isto não quer dizer que não gostei do livro.

"Correr" retrata a história do corredor tchecoslovaco Emil Zátopek, multicampeão, único homem a vencer as provas dos 5 mil, 10 mil e a maratona em uma mesma Olimpíada, em Helsinque, 1952. Emil, ou a "Locomotiva", como ficou conhecido, ainda deteve recordes nas provas de uma milha, 21km e 30km, além de diversas provas de cross-country e de ter sido o primeiro homem a correr mais de 20km em uma hora. Tornou-se, merecidamente, uma verdadeira lenda do esporte.

Quando vemos um campeão, principalmente olímpico e recordista mundial, tendemos a acreditar que tal ocorreu por causa de uma aptidão nata ou algum tipo de milagre. Conforme nos trouxe o Rodrigo em seu post sobre o jamaicano Usain Bolt, um campeão se faz à custa de muito trabalho, muita transpiração e superação de seus dramas pessoais. Emil Zátopek faria coro a ambos, ao dizer: "Duro no treino, fácil na prova!"

Emil descobriu a corrida em meio à ocupação da Tchecoslováquia pela Alemanha Nazista. Não gostava de esportes, seu sonho era ser químico. A corrida apareceu quase como uma imposição das autoridades, pois ou participava de uma prova em sua cidade ou iria parar nos campos de concentração alemães. Emil não conseguia apenas participar, caminhando ou correndo apenas para completar a prova. Ao calçar seus tênis, descobriu-se um vencedor. Desde então não parou mais.

É comovente e motivador na biografia de Zátopek sua determinação, força de vontade e competitividade. Dividindo sua vida entre o trabalho na fábrica e os treinos, nunca deixou de treinar, inventando até métodos próprios de treinamento, como correr grandes distâncias prendendo a respiração e também fazendo treinos de velocidade, enquanto todos os corredores de sua época focavam-se na resistência. Conta-nos o autor que Emil desmaiara duas vezes por causa dessas 'inovações' na rotina de treinamentos.

Não demorou muito para que Emil se destacasse no seu país, o que o levou a ganhar um posto no Exército tchecoslovaco e daí passou a ser usado como propaganda do regime.

Antes de conquistar suas inúmeras vitórias, nosso corredor tchecoslovaco acumulou derrotas. As viagens eram longas e as condições dos competidores nas provas não eram nem de longe as adequadas. Quando pensamos na estrutura que encontramos nas provas pelo mundo e ainda assim queremos desistir, não nos damos conta do esforço feito por esses atletas para impulsionar o esporte. Emil tinha que lutar ainda contra a solidão nos treinos, nas viagens e nas provas, exatamente como muitos de nós. Único representante de seu país, ele era muitas vezes motivo de piada para todos: "Quantos são? Só eu. Só você? Cadê os outros?". Impressionantemente, ele fazia de suas dificuldades combustível para as vitórias.

Para quem costuma rir dos outros durante as provas ou treinos, achando estranho a forma como alguns correm, a história de Zátopek nos ensina a não subestimar os demais. Emil nunca quis mudar seu estilo de pisadas fortes, cabeça balançando de um lado a outro, cara de dor, descompasso: queria correr como lhe cansasse menos. Sobre isso, o autor nos conta o diálogo entre Emil e seu treinador diante de duas canecas de cerveja (sim, cerveja!), poucas horas após a conquista da medalha de ouro na prova dos dez mil metros das Olimpíadas de Londres (1948). Ao ser questionado sobre a forma como corria, Emil disse com simplicidade:

"Não tenho talento o bastante para correr e sorrir ao mesmo tempo (...). Correrei com um estilo perfeito se um dia a corrida for apreciada com base numa tabela, como na patinação artística. Mas, para mim, por enquanto, tudo o que preciso é ir o mais rápido possível".
Detalhe: Zátopek vencera a prova dando pelo menos uma volta sobre cada adversário. Em tempo: foi ele também o descobridor do sprint final, uma verdadeira locomotiva a ultrapassar os adversários nos metros finais ou a pulverizar recordes!

Com sua notoriedade e famas mundiais, Emil, "A Locomotiva Humana", tornou-se uma celebridade e passou a ser utilizado como um trunfo do regime socialista em tempos de Guerra Fria. As vitórias lhe trouxeram promoções, fazendo-o adquirir, com isso, novas patentes no Exército. No entanto, o regime de seu país, sob ordens expressas de Moscou, passou a restringir ou até mesmo proibir suas viagens, por medo de que ele deserdasse para o lado Ocidental.

A glória de Zátopek ocorreu nas Olimpíadas de Helsinque, em 1952, quando conquistou três ouros, nos cinco e dez mil metros e na maratona, num curto intervalo de tempo. Sobre esta última prova, uma curiosidade: conta-se que durante a prova Emil não exibiu as caras de dor e descompasso habituais, mas conseguiu acompanhar os líderes com facilidade, desgarrando-se no fim e batendo o recorde mundial da prova. Ao entrar no Estádio Olímpico e temendo que o público não o reconhecesse, nosso corredor forçou uma feição de dor e sofrimento e terminou ovacionado.

A história de Emil Zátopek também se confundiu com a da prova mais conhecida entre nós e celebrada até hoje: a Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo, cuja largada acontecia então à meia-noite do último dia do ano, justamente no momento da virada. Como era costume, a largada se dava exatamente ao fim do hino nacional brasileiro. Como fazer então? A solução do tcheco foi decorar o hino! No entanto, em meio à euforia pela ocasião e também pela participação desta personalidade na prova, um rojão qualquer terminou por desencadear a prova. Isto não impediu que Emil vencesse a São Silvestre e fosse aclamado pelos brasileiros, de quem sempre guardou muito carinho.

Fica-nos também o ensinamento de que no fim de sua carreira Zátopek acumulou derrotas e soube a hora de parar. Nos jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956, já longe de sua forma e sob condições climáticas e ambientais desfavoráveis, Emil 'quebrou' no quilômetro trinta, seguindo com muito esforço para a linha de chegada, onde tombou na grama lateral após completar a prova.

Por fim, algumas palavras deste mito que, assim como sua vida, nos motivem sempre:

"Um atleta não pode correr com dinheiro nos bolsos. 
Ele deve correr com esperança no seu coração e sonhos na sua mente"



Referências: ECHENOZ, Jean. Correr. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2010.