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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sonhos de consumo - Top five!

Sem ideias para posts, o Tarso sugeriu que eu fizesse uma lista de provas que quero muito fazer um dia.

Como eu já subi um degrau, é natural que eu só pense em maratonas.

Bem, as cinco que me vêm à cabeça de cara são, não necessariamente nessa ordem:

Maratona de Chicago
Porque é uma das principais e o percurso favorece.



Maratona de Tóquio
Porque também é uma das principais do mundo e tenho vontade de conhecer o Japão.



Maratona de Atenas
Porque é a original, ora.



El Cruce
Pela superação de fazer uma ultra em lugares deslumbrantes da Patagônia chilena e argentina.



Maratona da Serra do Rio do Rastro (SC)
Pela beleza e pedreira, só subida! Se bem que há opção de 25k.



E você? Quais os seus sonhos de consumo? Sonhe alto!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Gracias a la vida!



Sim, podemos fazer isso! Rumo aos 42 quilômetros!
Na última terça-feira dia 21/07, levantei como de um salto às duas da manhã.  Eu havia ido dormir antes das 22h após colocar as crianças para dormir. De repente podia ser fome, logo tomei um leite. Os minutos se passavam e eu não conseguia pregar o olho. Tentei ver um pouco de tevê: nada feito. Liguei o Kindle: negativo, sem paciência para ler. Fechei os olhos e quase imediatamente tive o que chamo de crise de ansiedade: taquicardia, um pouco de desespero e... lá estava o medo de não completar a prova. Fiz minhas orações, dormi no sofá da sala pra não incomodar ninguém e finalmente, consegui dormir.

Esta foi a primeira vez que tive uma crise de pânico ou ansiedade mais intensa desde o ano passado, quando precisei ficar de licença médica por muitos dias. Aquela situação extrema ocorrida em 2014 foi o sinal de que algo estava indo mal. 

Passado o turbilhão,  decidi voltar a praticar exercícios físicos de forma séria e daí surgiu a maratona, como uma forma de deixar a doença definitivamente para trás. A corrida, que sempre me ajudou a relaxar, aliviar minha ansiedade (exatamente como o Rodrigo trouxe anteriormente), não podia funcionar sozinha, daí a necessidade de psicoterapia, fármacos e, principalmente,  Deus.

Seja como for, passei a terça-feira feira inteira tentando entender o que acontecera. Eu havia ido da euforia à derrota em pouco tempo! Estava (e estou) tão animado com a premência da prova que nunca havia me passado pela cabeça não conseguir completar. Eu havia dito à Dani Sixel e à Fernanda Monteiro que estava preparado. E realmente estou!

Buscando explicações, encontrei algo. Em primeiro lugar, a reportagem passada no Esporte Espetacular de domingo último (veja a reportagem aqui). O corredor que teve uma parada cardíaca no km 18 da Golden Four deste ano no Rio de Janeiro. Exames em dia, treinamento completado sem problemas, 14 meia-maratonas anteriores, mas alguém que não soube ouvir o corpo, afinal tivera um cansaço antes da subida do Joá. Um médico vindo a menos de 100m atrás lhe salva a vida. Anjo da guarda? Deus? Sorte? Acaso? Fatalidade? Não sei explicar. Poderia ter acontecido com qualquer um, mas por que justo com ele? Terei eu a paciência de ouvir meu corpo? Encontrarei ajuda se precisar? Ok, lição número 1 (ou algum número acima de 1 bilhão) aprendida.

Por último, a imagem do Fabinho (um de meus ícones neste esporte tão profissional, e tão amador) quebrando exatamente a uma semana da prova. Uma lesão que apareceu no momento errado e que talvez não possa ser tratada a tempo me fez concentrar-me na minha própria queixa dos últimos meses: meus pés. Estou há um tempo sem conseguir me tratar corretamente. Minhas dores quase sumiram, mas ainda estão lá.

Por este estado de coisas, decidi não treinar ontem (terça-feira). Quero dar descanso aos meus pés e à minha cabeça.

É hora de buscar lá atrás as motivações que me fizeram correr esta distância: minha saúde, o carinho da minha família- uma forma de agradecê-los por tudo: minha mãe e meu pai, por todas as perfeições e imperfeições e por nunca desistirem de mim, meu irmão, amigo e companheiro (talvez de quem eu mais sinta falta na vida), a felicidade que é estar ligado por laços eternos à minha esposa e pelas crianças maravilhosas que me deu. Seja qual for o resultado, sei que estarão lá pra me apoiar como sempre fizeram. Aos meus irmãos da Igreja, meus alunos e colegas de trabalho que me motivam a ir mais longe. Aos colegas corredores e ao Rossy, pela companhia e sorrisos a todo momento. A Deus, minha maior motivação. Não importa o quanto eu corra, só aí encontro paz.

Isabelle e Rodrigo, companheiros deste blog, pela grande equipe que pudemos formar, esperando que esta seja apenas nossa primeira parceria. Sei que vamos conseguir isto juntos.

Everton, seguirei seus conselhos à risca: esta semana será cheia de positividade!!!!! Obrigado pela serenidade e experiência. A chegada é logo ali!

Este é meu último relato antes da prova. Termino deixando uma música de uma das minhas preferidas: Mercedes Sosa. Estivemos presentes na última vez em que esteve aqui no Rio de Janeiro, poucos meses antes de morrer e me surpreendi com a sua garra ao superar suas dificuldades físicas (como locomover-se) para impostar sua voz inconfundível. Por isso, obrigado à vida por tudo o que me dera. Desejo, através dela, que cada um desses anônimos corredores consiga completar a prova, gente como eu, com suas dificuldades, trabalho, família, dramas pessoais. Aos amigos da Upsports minhas especiais orações e o meu muito obrigado!


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Correndo na beca

Como alguns já sabem, minha vida de corrida se deu, no início, pela falta de dinheiro para pagar uma academia, devido ao fato de ser estudante universitária. O que para mim, hoje, é com muito orgulho quando "encho" a boca de palavras para contar a alguém que me questiona por que comecei a correr.

A falta de minhas postagens, infelizmente e felizmente, se dá ao fato de eu estar chegando ao final de uma longa jornada. Provas e mais provas!! rsrs... "MANHÊ TÁ ACABANDO!!"

                   Foto de Formatura da Turma de Medicina Veterinária-UFF                  
Não poderia deixar de relatar aqui no blog mais essa conquista

Apesar das postagens terem diminuído, os treinos estão apenas aumentando.
Domingo passado (21), fiz meus primeiros 29km na companhia dos colegas da Equipe de Fibra, Cristiano, Marise e Marcio, e contando sempre com a ajuda e apoio do meu namorado nos primeiros 6km. (Aliás, fico muito orgulhosa de ter incentivado meu parceiro a dar início nessa vida viciante. Ele fará a Family Run no mesmo dia em que faremos a maratona).

Foram 3h e 4minutos de corrida sem parar, apenas com caminhadas durante a hidratação e reposição energética (gel de carboidrato). Neste dia, ao completar o treino fiquei em dúvida se conseguiria ir adiante por mais 13km (o que restaria para completar os 42km da maratona). Ao expor essa dúvida ao treinador, ele me acalmou dizendo que estes eram apenas os treinos, que ainda há vários pela frente, para eu ficar tranquila e não pensar nisso. Completar cada um dos treinos da planilha por vez, deixar a ansiedade de lado. E isso realmente me acalmou.

Foto após os 29km

No último sábado (27), eu e Marise corremos juntas novamente. Ela começou antes, pois iria percorrer 30km. Nos encontramos no km 9 do percurso dela, e assim nós poderíamos completar o treino juntas, eu com 21km e ela, com 30km.

Comparando-se com a dificuldade do treino de semana passada, esse semana foi molezinha rsrsrs. Faz parte de uma planilha de treinos esses altos e baixos da quilometragem.


Estou em contagem regressiva, ainda me faltam cinco provas universitárias e uma maratona para completar mais uma etapa.

Lembrando que só me formarei no final do ano. No curso de Medicina Veterinária, o 10º período (2º semestre de 2015) é apenas realizado em forma de estágio, confecção e apresentação de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Na estante do corredor: Correr, de Drauzio Varella


"Correr é experimentar uma liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança."


Lembro-me de me deparar com o Dr. Drauzio Varella há cerca de três ou quatro anos no salão de leitura da Biblioteca Nacional, próximo à minha mesa de trabalho. Chamou-me a atenção o fato de aquele senhor parecer mais novo do que o que tantas vezes via na televisão. Também fiquei espantado com sua altura. Não sei se ele estava apenas visitando, esperando por alguém ou se viera, de fato, fazer uma pesquisa.

Sempre ouvi dizer que o Dr. Drauzio, além de bom médico e de excelente escritor e cronista, era corredor. Ainda que já o admirasse, o livro "Correr", lançado sob o selo da Companhia das Letras, no último dia 25 de maio, me surpreendeu. Não apenas pelo fato de que há vinte anos o Dr. Drauzio corre ao menos uma maratona por ano, feito por si só incrível, como também por humanizar sua figura, já que as constantes aparições na televisão o deram um status de celebridade nacional e, como tal, inalcançável a pessoas comuns como eu.

Tal qual um treinamento para a corrida, o livro se divide em duas partes principais, por meio de crônicas intercaladas: as experiências de vida que o ato de correr o proporcionam e explicações médicas sobre as principais questões que afligem os corredores. Desta feita, experiências adquiridas pelo autor nas maratonas de Nova Iorque, Boston, Chicago, Tóquio, dentre outras, sincronizam-se com explicações médicas para uma patologia que ele ou outro corredor possa ter experimentado concretamente. Há também a história da primeira maratona, a guerra ocorrida na Grécia na Antiguidade. Particularmente tenho a opinião de que tal questão não necessitava de tratamento, no entanto, entendo sua óbvia disposição na obra sobre o tema.

O grande objetivo do autor, ao meu ver, ao escrever o livro foi mostrar que a decadência não chega conforme os anos se avolumem. Pelo contrário, Dr. Drauzio Varella demonstra que não só seu corpo, mas sua mente insistem em se manter em plena forma e cumprir os diversos e crescentes compromissos que ele tem no dia a dia. A chegada emocionante e o abraço apertado nas duas filhas ao conquistar a vitória pessoal, completando a Maratona de Boston em 2014 com o impressionante tempo de quatro horas e dois minutos, não só comprovam a tese do autor, como também nos servem de alento para nunca desistirmos da prática de exercícios e da manutenção de uma vida saudável.

O autor, como todo maratonista ou corredor de rua, passou e passa por tudo aquilo que passamos. Quem nunca ouviu a frase: "Ihhhh, não faz isso não, isso faz mal ao ser humano!" Ou, quem nunca ao correr na rua percebeu olhares tortos ou comentários jocosos dos transeuntes, principalmente se estamos correndo antes de o sol nascer ou em dias ensolarados, propícios a uma praia? Quem nunca deixou de ir a um evento, uma festa, visando dormir cedo a fim de se preparar para uma prova? O livro é uma fonte de argumentos para podermos seguir em frente. Como disse certa vez José Saramago, "todo Homem é uma Ilha". Só quem já teve a experiência de enfrentar muitos quilômetros correndo sozinho pelas ruas pode sentir a multiplicidade de emoções que tal solidão provoca.

Chamaram-me a atenção duas questões tratadas no livro: (a) como o sacrifício pessoal lhe trouxe recompensas e (b) os relatos da primeira maratona (Nova Iorque, 1993) e da Maratona do Rio de Janeiro, em 2013. Estas últimas questões acho que nos tocam diretamente.

Não são raras as vezes em que Drauzio Varella relata os ganhos físicos, mas principalmente psicológicos que a corrida lhe trouxe. Apesar da dificuldade, do sofrimento que é para todos acordar de madrugada, justamente no horário em que o sono é mais arrebatador, o médico e escritor compartilha conosco a sensação de paz que se instalava no fim das corridas e que permaneciam durante todo o dia, ajudando-o a enfrentar a dureza dos compromissos. Ainda: tal qual nos relatou Rodrigo, em recente postagem, doutor Drauzio conseguiu, a partir de então, controlar melhor a ansiedade e a agitação da vida atribulada que sempre levou, tornando-se mais confiante, disciplinado e sereno.

A história de nossas provas é, definitivamente, a história de nós mesmos. O livro, narrando a história das provas completadas pelo médico, assim como outras aventuras (e desventuras) relacionadas à corrida, nada mais faz que trazer à tona suas lembranças mais singelas nos seus setenta anos de vida.

Para quem aguarda ansiosamente a chegada do glorioso dia 26 de julho quando, finalmente, esperamos completar a nossa primeira maratona, os capítulos relacionados à primeira maratona, em 1993, e à Maratona do Rio de Janeiro, em 2013, são tocantes. Não há como não se emocionar e não sofrer junto com Drauzio ao ler sua chegada em Nova Iorque, nem como não ser tocado pela linda descrição do percurso dos 42km da Maratona do Rio de Janeiro. Confesso que imaginei-me no dia da prova, foi irresistível.

Leitura imperdível, leve e agradável. Nos vemos por aí.


"Impossível imaginar quem eu seria hoje se eu não tivesse começado a correr" 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Na estante do corredor: Correr, de Jean Echenoz

A leitura é um de meus hábitos preferidos. Sempre tenho livros na mochila e não é incomum que eu deixe de notar alguém por estar lendo naquele exato momento. Junto com minhas primeiras passadas vieram também os primeiros livros sobre corrida.

Inauguramos aqui mais uma das seções do nosso blog: "Na estante do corredor", onde pretendemos incluir os livros que marcaram nossas práticas esportivas e pessoais, ou mesmo outros de que gostamos e foram importantes ou não num determinado momento. Nisto contamos também com a ajuda do nosso público leitor do blog, indicando outras obras ou mesmo trazendo resenhas de livros de corrida ou de histórias emocionantes do esporte.

Como um bom bibliófilo, compro livros, aproveitando uma boa ocasião, prometendo-me lê-lo num momento posterior. Isto aconteceu com o livro que lhes apresento hoje, comprado numa promoção de 50% feita pela Livraria Cultura. "Correr", do francês Jean Echenoz, é um livro curto, de fácil leitura, bom para todas as ocasiões. Confesso que como bom historiador senti falta dos marcos cronológicos, que ajudam a pontuar os acontecimentos mundiais. Isto não quer dizer que não gostei do livro.

"Correr" retrata a história do corredor tchecoslovaco Emil Zátopek, multicampeão, único homem a vencer as provas dos 5 mil, 10 mil e a maratona em uma mesma Olimpíada, em Helsinque, 1952. Emil, ou a "Locomotiva", como ficou conhecido, ainda deteve recordes nas provas de uma milha, 21km e 30km, além de diversas provas de cross-country e de ter sido o primeiro homem a correr mais de 20km em uma hora. Tornou-se, merecidamente, uma verdadeira lenda do esporte.

Quando vemos um campeão, principalmente olímpico e recordista mundial, tendemos a acreditar que tal ocorreu por causa de uma aptidão nata ou algum tipo de milagre. Conforme nos trouxe o Rodrigo em seu post sobre o jamaicano Usain Bolt, um campeão se faz à custa de muito trabalho, muita transpiração e superação de seus dramas pessoais. Emil Zátopek faria coro a ambos, ao dizer: "Duro no treino, fácil na prova!"

Emil descobriu a corrida em meio à ocupação da Tchecoslováquia pela Alemanha Nazista. Não gostava de esportes, seu sonho era ser químico. A corrida apareceu quase como uma imposição das autoridades, pois ou participava de uma prova em sua cidade ou iria parar nos campos de concentração alemães. Emil não conseguia apenas participar, caminhando ou correndo apenas para completar a prova. Ao calçar seus tênis, descobriu-se um vencedor. Desde então não parou mais.

É comovente e motivador na biografia de Zátopek sua determinação, força de vontade e competitividade. Dividindo sua vida entre o trabalho na fábrica e os treinos, nunca deixou de treinar, inventando até métodos próprios de treinamento, como correr grandes distâncias prendendo a respiração e também fazendo treinos de velocidade, enquanto todos os corredores de sua época focavam-se na resistência. Conta-nos o autor que Emil desmaiara duas vezes por causa dessas 'inovações' na rotina de treinamentos.

Não demorou muito para que Emil se destacasse no seu país, o que o levou a ganhar um posto no Exército tchecoslovaco e daí passou a ser usado como propaganda do regime.

Antes de conquistar suas inúmeras vitórias, nosso corredor tchecoslovaco acumulou derrotas. As viagens eram longas e as condições dos competidores nas provas não eram nem de longe as adequadas. Quando pensamos na estrutura que encontramos nas provas pelo mundo e ainda assim queremos desistir, não nos damos conta do esforço feito por esses atletas para impulsionar o esporte. Emil tinha que lutar ainda contra a solidão nos treinos, nas viagens e nas provas, exatamente como muitos de nós. Único representante de seu país, ele era muitas vezes motivo de piada para todos: "Quantos são? Só eu. Só você? Cadê os outros?". Impressionantemente, ele fazia de suas dificuldades combustível para as vitórias.

Para quem costuma rir dos outros durante as provas ou treinos, achando estranho a forma como alguns correm, a história de Zátopek nos ensina a não subestimar os demais. Emil nunca quis mudar seu estilo de pisadas fortes, cabeça balançando de um lado a outro, cara de dor, descompasso: queria correr como lhe cansasse menos. Sobre isso, o autor nos conta o diálogo entre Emil e seu treinador diante de duas canecas de cerveja (sim, cerveja!), poucas horas após a conquista da medalha de ouro na prova dos dez mil metros das Olimpíadas de Londres (1948). Ao ser questionado sobre a forma como corria, Emil disse com simplicidade:

"Não tenho talento o bastante para correr e sorrir ao mesmo tempo (...). Correrei com um estilo perfeito se um dia a corrida for apreciada com base numa tabela, como na patinação artística. Mas, para mim, por enquanto, tudo o que preciso é ir o mais rápido possível".
Detalhe: Zátopek vencera a prova dando pelo menos uma volta sobre cada adversário. Em tempo: foi ele também o descobridor do sprint final, uma verdadeira locomotiva a ultrapassar os adversários nos metros finais ou a pulverizar recordes!

Com sua notoriedade e famas mundiais, Emil, "A Locomotiva Humana", tornou-se uma celebridade e passou a ser utilizado como um trunfo do regime socialista em tempos de Guerra Fria. As vitórias lhe trouxeram promoções, fazendo-o adquirir, com isso, novas patentes no Exército. No entanto, o regime de seu país, sob ordens expressas de Moscou, passou a restringir ou até mesmo proibir suas viagens, por medo de que ele deserdasse para o lado Ocidental.

A glória de Zátopek ocorreu nas Olimpíadas de Helsinque, em 1952, quando conquistou três ouros, nos cinco e dez mil metros e na maratona, num curto intervalo de tempo. Sobre esta última prova, uma curiosidade: conta-se que durante a prova Emil não exibiu as caras de dor e descompasso habituais, mas conseguiu acompanhar os líderes com facilidade, desgarrando-se no fim e batendo o recorde mundial da prova. Ao entrar no Estádio Olímpico e temendo que o público não o reconhecesse, nosso corredor forçou uma feição de dor e sofrimento e terminou ovacionado.

A história de Emil Zátopek também se confundiu com a da prova mais conhecida entre nós e celebrada até hoje: a Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo, cuja largada acontecia então à meia-noite do último dia do ano, justamente no momento da virada. Como era costume, a largada se dava exatamente ao fim do hino nacional brasileiro. Como fazer então? A solução do tcheco foi decorar o hino! No entanto, em meio à euforia pela ocasião e também pela participação desta personalidade na prova, um rojão qualquer terminou por desencadear a prova. Isto não impediu que Emil vencesse a São Silvestre e fosse aclamado pelos brasileiros, de quem sempre guardou muito carinho.

Fica-nos também o ensinamento de que no fim de sua carreira Zátopek acumulou derrotas e soube a hora de parar. Nos jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956, já longe de sua forma e sob condições climáticas e ambientais desfavoráveis, Emil 'quebrou' no quilômetro trinta, seguindo com muito esforço para a linha de chegada, onde tombou na grama lateral após completar a prova.

Por fim, algumas palavras deste mito que, assim como sua vida, nos motivem sempre:

"Um atleta não pode correr com dinheiro nos bolsos. 
Ele deve correr com esperança no seu coração e sonhos na sua mente"



Referências: ECHENOZ, Jean. Correr. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2010.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Das Trevas à Areia

Este post é dedicado à minha filhota do meio, por me ajudar a encontrar a luz que me ajudou a me recuperar mais rápido, saindo, pois, das trevas e me levando à areia.

Crianças são anjos que Deus enviou para nos ajudar. Eu tenho a felicidade de ter três. Na quinta-feira retrasada eu estava de saída para a Igreja quando Martha correu ao armário e voltou com um par de tênis dizendo: papai, vai com esse aqui que sai luz, por favor (ela falou isso porque ele brilha no escuro). Atendi seu pedido e saí naquela noite com estes calçados nada convencionais. Os tênis em questão eram os Asics Tri Noosa 6, os meus preferidos, que quase nunca uso, para preservá-los, já que já estão macios.

Por incrível que pareça, desde aquela noite não tive mais dores incapacitantes no pé. Claro que continuei com eles todos os dias seguintes, acho que por pura superstição. Ainda me assusto só de pensar que ela, propositadamente ou não, colaborou com meu retorno, me dando ânimo ao me fazer crer que estava melhorando.


O fato é que sábado finalmente voltei a correr. Eu esperava com muita ansiedade por este momento. Não fui para o askm na areia dura, afinal, não dava pra arriscar meus pés na dureza do negrume logo de cara. A orientação do Dr. Bernardo foi bem clara: "VAMOS DEVAGAR".

Corri como de hábito às 6h. Tudo foi perfeito, tanto que meu sorriso estava estampado no rosto desde a primeira passada. Não me preocupei com tempo nem pace. Qual não foi minha surpresa ao ver que fechei abaixo de 6min/km! O resultado imediato foi a planta do pé um pouco dolorida, mas nada demais. Todo atleta sente uma dorzinha em algum lugar. Claro que percebi que meu condicionamento físico piorou um pouco e que não sou capaz de fazer mais de 10km nesta semana. Vamos ver como as coisas evoluem.



O mais importante é que me senti vivo novamente. Desde a lesão tenho feito exercícios para o pé, tendão de aquiles e panturrilha ao menos três vezes por dia. Isso inclui também passar o tal sebo de carneiro, pisar na bolinha várias vezes ao dia, alongar meu pé com a thera band, massagear a planta do meus pés com uma garrafa d'água congelada e, finalmente, dormir com as imobilizações noturnas para o pé, específicas para o tratamento da fascite plantar.  Também não dá pra descartar as prescrições médicas e familiares (como as da Marthinha).

Além da disciplina dos exercícios, da paciência pra saber a hora de voltar, ainda tive que mudar minha postura durante o sono, afinal não posso mais dormir de bruços.

Não sei o que deu certo disso tudo, se algo individualmente (principalmente a banha de Carneiro Capado) ou se tudo junto e misturado. O importante é que vem dando certo! E assim vou eu, perdi um pouco de tempo, mas ainda terei muitas oportunidades de me preparar adequadamente.

E vamos que vamos! 




domingo, 10 de maio de 2015

Minha primeira maratona - Por Rossy Borges

O blog inaugura um espaço para corredores, conhecidos ou não, compartilharem como foi sua primeira maratona, do treino à prova. Para facilitar a identificação dos leitores, os textos serão sempre publicados com o título "Minha primeira maratona - Por Fulano de Tal", como se fosse uma coluna de convidados. A estreia não poderia ser diferente: nosso treinador Rossy Borges revive seus primeiros 42km, uma história de superação e amizade, da mesma forma que nasceu o 3namaratona.

Aos 28 anos completei minha primeira maratona. Como tudo na vida, a primeira vez a gente nunca esquece. Rssss. Já tinha feito pelo menos três meias maratonas antes de tomar a decisão de partir para a maratona. Por que fazer uma maratona? Precisava provar para mim mesmo que eu era capaz de me superar e poder transmitir essa experiência para meus futuros atletas. Escolhi a Maratona do Rio de Janeiro, a mais linda que já fiz.

Meus treinos não foram os melhores e nem tão pouco eficientes, não malhava para fortalecer minhas pernas e tronco, não fiz nenhuma restrição alimentar ou dieta e minha vida noturna era muito ativa.  Não abria mão de nada!!! Hoje, falo para meus atletas brincando com um ditado popular sobre aquela minha primeira maratona: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Lembro muito bem do meu último longão, uma semana antes da prova. Estava chovendo muito em Niterói, não tinha como treinar na rua e precisava fazer meu treino derradeiro de 25km para ganhar confiança e moral para a prova. Bom, não tive opção, fui para a academia e fiz o primeiro e único treino de 25km indoor. Depois do treino, percebi que estava quase preparado para fazer a prova. A única certeza que tive foi que completaria a prova independentemente do tempo final.


Naquele 29/06/2008, acordei muito bem e me alimentei “daquele jeito” antes de partir para o Rio. Marcamos para sair do último posto antes da subida da Ponte. Estávamos ansiosos, eu, meu amigo Israel e a guerreira Vandinha. Quando chegamos no Recreio, definimos os últimos detalhes da estratégia e largamos rumo ao Aterro do Flamengo.

Nada como fazer provas com amigos e parceiros. Foi assim na minha primeira maratona, juntos nós curtimos pelo menos os 21km da prova. O Israel (paulista) contava piadas até o km 21. Tudo era lindo e maravilhoso e fácil demais!!! Rssss... Até que chegou o viaduto da Barra, começava a sentir minhas pernas mais cansadas devido à ausência do treinamento de força específico. Lembro também que levamos um spray (tipo gelol) para dor, coloquei no meu joelho que já estava doendo. Israel e Vandinha passaram nos joelhos e na lombar, respectivamente. 

Aproximando de São Conrado e Niemeyer, perdemos Vandinha que passou a diminuir o ritmo por conta das dores. Prosseguimos eu e Israel e víamos Vandinha no retrovisor. No final da Niemeyer, Israel pediu um tempo para caminhar e depois voltar a correr. Falei que não, era para ser forte e suportar a dor até o fim. Já tínhamos cruzado Leblon e Ipanema, quando foi a minha vez de pedir para caminhar, já não aguentava de dor e foi o Israel que me pediu naquela vez para aguentar, que faltava menos de 15km para fecharmos a prova.

Já em Copacabana, comecei a sofrer, gritei para mim mesmo: “Dor filhadap... vou te vencer, não estou sentindo mais nada!!!!” rssss... Meu corpo estava pedindo para parar e minha mente falava: “Continue, falta pouco, vá em frente!!!” Comecei a chorar e pensava somente nos meus pais que naquela hora já estavam na linha de chegada me esperando. Cruzamos Copacabana e Vandinha reapareceu!!! Tentei puxá-la para que nos acompanhasse até o fim, mas ela sentia muito o peso das pernas e desistiu de ir com a gente. 


Entramos no Aterro do Flamengo. Diferentemente dos primeiros 21km, já não falávamos mais um com o outro (eu e Israel). A concentração era máxima para que finalizássemos a prova. A dor já tínhamos superado e faltavam menos de 5km para completar a minha primeira maratona da vida. Avistando o pórtico de chegada, lá estavam minha família, amigos e atletas. Fechei com o tempo de 5 horas e menos de 10min. Uma experiência única de superação e controle do corpo e da mente. Claro, fiquei uma semana quase sem andar direito. O Israel completou a prova na minha frente com um super sprint paulista e Vandinha chegou alguns minutos atrás.  Após a minha primeira maratona, decidi fazer as seis maiores do mundo, faltam apenas três.

Abs,

Rossy Borges

Treinador e Diretor Técnico da Upsports Club